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Conjuntura
Eclesial e Sínodo
para uma Nova Evangelização |
Sem
dúvida vivemos um tempo crítico na história
da humanidade e da Igreja com repercussões em
nosso país. Não voltaremos a descrevê-lo,
pois tal já foi realizado muito bem pelo Padre
Joel Amado na Assembléia passada. Apenas gostaríamos
de enfatizar, logo de início, que a seriedade
da hora atual pede coragem de encarar a realidade, de
discernir o que convém à luz da fé
cristã, de ousar iniciativas novas. O Documento
de Aparecida afirma que todos na Igreja “são
chamados a assumir atitude de permanente conversão
pastoral, que implica escutar com atenção
e discernir ‘o que o Espírito está
dizendo às Igrejas’ (Ap 2,29) através
dos sinais dos tempos em que Deus se manifesta”
(DAp 366). O texto dos Lineamenta para o próximo
Sínodo sobre “a nova evangelização
para a transmissão da fé cristã”
afirma que os novos desafios “obrigam a Igreja
a se questionar de modo novo sobre o sentido de suas
ações de anúncio e de transmissão
da fé” (L 3).
Realmente vivemos, quer nos agrade ou não, a
passagem de uma Igreja de cristandade para uma Igreja
de diáspora que nos aproxima de certo modo do
cristianismo primitivo. Toda mudança exige não
só atenção, clarividência,
avaliação e discernimento com relação
ao que está em questão, mas também
certa lucidez concernente às condições
e aos pressupostos exigidos para que ela possa, de fato,
se tornar realidade. Portanto, o objetivo desta exposição
é apresentar as principais linhas pastorais presentes
tanto no corpo dos Lineamenta como também no
texto das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora
da Igreja no Brasil a ser votado nesta Assembléia.
E ao apresentar estas orientações fundamentais,
procurar apontar algumas opções pastorais
para que elas possam ser fecundas em nosso país.
Dividiremos esta exposição em seis partes:
a nova evangelização, a pessoa de Jesus
Cristo, a missão da Igreja, a iniciação
à vida cristã, a Igreja como comunidade
de comunidades e, finalmente, a Igreja e a realidade
sociopolítica.
1. Nova Evangelização
Expressão fundamental nos Lineamenta “Nova
Evangelização” significa não
uma reevangelização, mas uma evangelização
nova em seu ardor, em seus métodos, em suas expressões,
como a caracterizou João Paulo II falando ao
Episcopado Latino-americano em 1983. Assim ela não
é uma duplicata ou repetição da
primeira evangelização, “mas é
a coragem de ousar novos caminhos para atender às
mudanças de condições dentro das
quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio
do Evangelho” (L 5). Mais tarde João Paulo
II utilizará o mesmo termo ao se dirigir à
Igreja Universal em sua encíclica Redemptoris
Missio, conclamando-a “a um renovado empenho missionário”
(RMi 2). Este conceito esteve também presente
nas Assembléias dos Sínodos Continentais
implicando renovação espiritual, discernimento
diante das mudanças, assunção de
novas responsabilidades (L 5).
Sensível à realidade de descrença
e de indiferença religiosa encontrada na Europa,
embora a se difundir por toda parte, Bento XVI lançou
em sua visita à República Checa a idéia
do “pátio dos gentios” como um espaço
onde todos possam entrar e rezar ao único Deus
que não conhecem, por estarem insatisfeitos com
seus deuses, seus ritos e seus mitos. A mesma imagem
volta quando o papa trata da pastoral no mundo da internet,
o qual pode se tornar um importante meio para atingir
os que não acreditam, os que caíram no
desânimo e os que cultivam no coração
desejos de absoluto e de verdades não caducas
(Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações
Sociais em 24/01/2010). No fundo, Bento XVI está
a nos indicar novos caminhos e novos públicos
para a evangelização.
Mudanças de época sempre provocam certa
desorientação e perplexidade. Pois os
referenciais tradicionais são questionados, sejam
mentalidades, sejam valores. A pluralidade de leituras
coexistentes pode levar ao relativismo, bem como a uma
reação contrária no fundamentalismo.
Além disso, o individualismo cultural, a pressão
da produtividade econômica, o consumismo crescente
e o sucesso pessoal, com suas conseqüências
nefastas são experimentados por todos habitantes
do planeta. Porém, em nosso país, a nova
evangelização apresenta ainda destinatários
próprios.
De fato, nosso povo conserva uma religiosidade básica,
já diminuída ou simplesmente desaparecida
em países do Primeiro Mundo. Entretanto, observada
mais de perto, esta religiosidade não significa
sem mais que estejam evangelizados. Encontramos em alguns
um catolicismo superficial, limitado a práticas
religiosas de cunho emocional, voltado para a obtenção
de favores, ou ainda fechado em si mesmo, sem se importar
com o próximo. Naturalmente a situação
socioeconômica de muitos brasileiros, a insuficiência
do sistema de saúde, a crescente violência
explicam de certo modo esta religiosidade. Mas sabemos
também que os católicos não praticantes
podem ser presas fáceis para outras confissões
religiosas, ou mesmo para a descrença. Poderíamos
ainda indicar outras lacunas, muito nossas, a serem
sanadas pela nova evangelização como a
dimensão mística ou experiencial da fé,
o imperativo missionário inerente à vocação
cristã, a ausência de uma vivência
realmente comunitária na Igreja, certa apatia
com relação ao compromisso por uma melhor
sociedade. Mas estes temas voltarão mais adiante.
2. A pessoa de Jesus Cristo e o Reino de Deus
O encontro pessoal com Jesus Cristo foi frequentemente
enfatizado por João Paulo II em seu pontificado,
repercutindo nas Assembléias Episcopais Latino-americanas
de Puebla, de Santo Domingo e de Aparecida. A afirmação
de Bento XVI já é bem conhecida: “Não
se começa a ser cristão por uma decisão
ética ou uma grande idéia, mas através
do encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que
dá um novo horizonte à vida e, com isso,
um rumo decisivo” (DCE 1). Esta verdade implica
que vejamos os Evangelhos não apenas como fonte
de conhecimento sobre Jesus Cristo e sua mensagem, mas
como a Palavra de Deus que nos interpela, desinstala,
e questiona, urgindo uma resposta de nossa parte. Esta
Palavra é um convite a nos entregarmos e a nos
comprometermos com Jesus Cristo, realizando então
uma experiência salvífica.
Sendo assim, esta experiência salvífica
constitui a finalidade do anúncio salvífico
(querigma) (DAp 289) e aponta para a dimensão
mística da fé, um dado da tradição
eclesial, infelizmente esquecido (DAp 290). De fato,
a transmissão da fé de uma geração
para outra não consiste em comunicar um pacote
de verdades ou de normas, mas de passar adiante uma
experiência significativa, plenificante, salvífica,
feita com Jesus Cristo. Daí a importância
do testemunho existencial de quem evangeliza. Daí
também a importância do contato com a pessoa
de Jesus Cristo através dos relatos neotestamentários
e da oração freqüente. Quando esta
experiência inicial se encontra ausente, nosso
zelo por formulações doutrinais corretas,
nossas recomendações para práticas
religiosas, nossos apelos a maiores compromissos pelo
Reino, numa palavra, nossas pastorais não conseguem
alcançar o fruto desejado. E aqui nasce a pergunta:
em nossa vida de fé e em nossa atividade pastoral
ocupa esta familiaridade com Jesus Cristo o lugar que
lhe compete? Ou enquadramos de tal modo a fé
cristã em categorias racionais ou jurídicas,
em práticas e instituições, embora
em si necessárias, que leva muitos a buscarem
em religiões orientais a mística que temos
sobejamente na nossa? Não se concentra aqui todo
o impulso para uma autêntica iniciação
cristã, como desejam os recentes documentos do
magistério?
Entretanto para não sucumbirmos a um relacionamento
com Jesus Cristo de cunho intimista, interesseiro, sentimental,
não podemos separar a pessoa do Mestre de Nazaré
de sua missão: proclamar e fazer acontecer o
Reino de Deus na história humana. Em suas palavras
e em suas ações transparece o amor do
Pai por todos, convidando a todos a ter com seus semelhantes
a mesma atitude de Deus. Assim mostrava que só
no amor fraterno, na atenção e no cuidado
com o outro, sobretudo com o próximo em necessidade,
seria possível uma convivência humana na
paz e na justiça. Portanto, acolher a pessoa
de Jesus Cristo é sem mais acolher a causa do
Reino de Deus. De fato, muitos chegam a uma autêntica
experiência de Deus no serviço, muitas
vezes desapercebido, aos mais pobres e excluídos.
A pessoa de Jesus é também decisiva para
a nossa imagem de Deus. “Ninguém conhece
o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho
o quiser revelar” (Mt 11,27). Se levarmos realmente
a sério este dado da revelação,
então deveríamos haurir nossa representação
de Deus das palavras (sobretudo das parábolas)
e das ações de Jesus. Pois a história
do cristianismo nos demonstra que deformações
deturparam a autêntica face de Deus revelada em
Jesus Cristo e que ainda hoje provocam dificuldades
em muitos cristãos e não cristãos
(GS 19). Deus não é a divindade distante
dos deístas, nem ameaçadora dos jansenistas,
nem só presente no sofrimento ou tapa-buraco
nas necessidades. Deus é amor, é misericórdia,
é compassivo e bom, apaixonado pelo ser humano
a ponto de sacrificar o seu próprio Filho para
que tivéssemos a vida (1 Jo 4,9s). Acreditamos
realmente no Deus de Jesus Cristo? Confiamos nele em
nossa miséria sem buscar garantias humanas que
dele nos protejam? Nossas pastorais refletem este Deus
amor e misericórdia?
3. A missão da Igreja
Toda a razão de ser da Igreja é levar,
ao longo da história, a salvação
de Jesus Cristo para toda a humanidade. Sua razão
de ser está voltada para a sociedade a ser evangelizada,
como nos recorda Paulo VI, citado nos Lineamenta (L
2): “Evangelizar constitui, de fato, a graça
e a vocação própria da Igreja,
a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar”
(EN 13). Daí ser a nova evangelização
a missão fundamental da Igreja (L 10). E como
todos os batizados constituem a comunidade eclesial,
todos eles, por serem católicos, devem também
ser missionários. Razões históricas,
que não nos cabe aqui discutir, limitaram ao
clero a atividade pastoral, levando o laicato a uma
passividade que perdura até nossos dias, e que,
felizmente, começa a ser superada.
Se toda a Igreja é missionária não
deve nos admirar que as mudanças socioculturais
ocorridas na sociedade repercutam também na ação
pastoral da Igreja. Novos desafios, novas situações,
novas oportunidades pedem novas iniciativas evangelizadoras,
como percebeu muito bem Bento XVI com a sua idéia
do “pátio dos gentios”. Nova evangelização
significa assim uma resposta adequada às necessidades
dos nossos contemporâneos, à cultura atual,
aos novos cenários (L 23). Os Lineamenta os caracterizam
como cenários sociais, culturais, econômicos,
políticos, religiosos e os expõe concretamente
(L 6). Primeiramente descreve o cenário da cultura
e aponta o fenômeno da secularização,
presente especialmente no mundo ocidental, que denota
uma vida humana e social sem qualquer referência
a uma realidade transcendente. Assinala também
a presença do individualismo hedonista e consumista,
o surgimento de um sagrado ambíguo, o fundamentalismo
e o emprego da violência em nome de Deus. Num
segundo cenário de cunho social são apontados
o fenômeno migratório, a relativização
dos valores e das tradições, a globalização
crescente com suas vantagens e desvantagens.
O cenário seguinte descreve o progresso enorme
dos meios de comunicação social, que tão
fortemente influenciam nossos contemporâneos e
que apresentam aspectos positivos e negativos, que são
devidamente descritos. O cenário econômico
assinala a crise atual e a necessidade de regulamentar
o mercado mundial, bem como a ausência de uma
sensibilidade maior para com os países mais pobres.
O quinto cenário é o da ciência
e da tecnologia que tantos benefícios tem trazido
à humanidade, mas que pode se arvorar em nova
religião com o monopólio da verdade, do
sentido da vida e da ética. O último cenário
é o da política que apresenta uma situação
inédita, rica de potencialidades e de tentações
de domínio, com o fim do bilateralismo até
então vigente. Estes novos desafios “questionam
práticas consolidadas, enfraquecem percursos
habituais e já padronizados” (L 3), mas
também pedem mais profundamente uma nova configuração
eclesial (L 9). Deste modo, “o problema da falta
de fecundidade da evangelização hodierna
é um problema eclesiológico, que diz respeito
à capacidade de a Igreja se configurar, ou não,
como uma comunidade real, como uma verdadeira fraternidade,
como um corpo e não como uma máquina ou
uma empresa” (L 2).
O mesmo problema já havia sido percebido pelos
bispos em Aparecida quando urgiam o abandono de “estruturas
ultrapassadas que já não favoreçam
a transmissão da fé” (DAp 365) ou
quando afirmavam que uma renovação eclesial
“implica reformas espirituais, pastorais e também
institucionais” (DAp 367). Temos que reconhecer
ainda que uma determinada configuração
eclesial inevitavelmente condiciona a mentalidade e
o comportamento do católico. Se no passado só
a hierarquia tinha voz ativa e o comando das iniciativas,
naturalmente o laicato se comportava como uma massa
silenciosa, obediente e passiva. Portanto, não
conseguiremos incutir no laicato uma consciência
missionária se não oferecermos novas estruturas
de comunhão e de participação.
Em nossos dias “o processo de evangelização
se transforma num processo de discernimento”,
para ouvir o Espírito, para captar os sinais
dos tempos, que implica “um momento de escuta,
de compreensão, de interpretação”
(L 3). As Igrejas Locais devem ter claros os objetivos,
os meios, as modalidades para a realização
efetiva da nova evangelização, bem como
os desafios de seu respectivo contexto sociocultural
(L 4). E igualmente um discernimento crítico
para com os estilos de vida, as mentalidades dominantes,
as linguagens comuns, os valores presentes na atual
sociedade (L 7).
Além disso, numa época caracterizada pela
inflação de discursos e pelo conseqüente
ceticismo com relação a soluções
ideais, numa época que entende pouco das formulações
religiosas do passado, numa época em que as instituições
estão em crise, se torna fundamental o testemunho
de vida. Nas palavras de Paulo VI: “O homem contemporâneo
escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que
os mestres, ou então se escuta os mestres, é
porque eles são testemunhas” (EN 41). Assim
o exemplo de uma vida coerente com a mensagem evangélica
valoriza e dá credibilidade à Igreja.
Pois se trata de alguém que vive a aventura da
existência conservando a paz, a esperança
e mesmo a alegria em meio às dificuldades e aos
sofrimentos próprios da condição
humana. E muitas vezes este testemunho acontece em espaços
da sociedade onde jamais pisou um clérigo!
Importante também é respeitar as pessoas
em sua caminhada histórica. Como Jesus no encontro
com a samaritana, saber partir da situação
de cada um e ir, com paciência e compreensão,
levando-lhe a mensagem evangélica sem exigir
dele o que, no momento, não pode nem entender
nem praticar. Reconhecemos ser um sério desafio
esta pastoral personalizada pela escassez de evangelizadores
devidamente competentes para tal. Mas o texto de Aparecida
é claro: o encontro pessoal com Jesus Cristo
e com sua missão “é um caminho longo
que requer itinerários diversificados, respeitosos
dos processos pessoais e dos ritmos comunitários”
(DAp 281).
Uma outra característica da missão em
nossos dias é que ela não deve temer se
enfrentar com a sociedade onde vivemos. Não podemos
“permanecer fechados nos recintos de nossas comunidades
e das nossas instituições” (L 7).
Para tal é preciso que conheçamos bem
o contexto sociocultural que marca a vida de nossos
contemporâneos. Só assim estaremos capacitados
a empregar uma linguagem que lhes seja significativa
e, portanto, salvífica. Para tal é preciso
também conhecer, não superficialmente,
as verdades da nossa fé, para que saibamos dar
razões da nossa esperança (1 Pd 3,15;
ver L 16). Felizmente observamos uma busca crescente
de formação teológica por parte
do laicato, embora, muitas vezes, o mesmo fenômeno
não possa ser afirmado entre os que se preparam
para o sacerdócio, que deveriam ter um contato
maior com a sociedade real onde irão exercer
seu ministério (DAp 323), para sentir de perto
o desafio da pastoral futura. Este objetivo seria mais
facilmente alcançado se participassem, sempre
que possível, da vida universitária em
alguma instituição católica. Pois
se nota em alguns padres mais novos certo medo desta
sociedade complexa e secularizada, que pode levá-los
a se refugiarem no âmbito do culto e da administração.
4. Iniciação à vivência cristã
O advento de uma sociedade secularizada que não
mais respalda a fé dos católicos, bem
como a insuficiência de uma iniciação
cristã por parte da família, da escola
e mesmo da paróquia, levará a Igreja a
insistir num encontro pessoal com Jesus Cristo como
fator decisivo para a recepção mais consciente
dos sacramentos e da pertença à comunidade
eclesial. De fato, pressuposto necessário para
que doutrinas e normas sejam devidamente acolhidas e
seguidas pelo fiel é que ele já tenha
experimentado antes a atração e a força
da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo. O encontro
com a pessoa é mais importante do que o contato
com a instituição, embora seja esta última
que nos leva a Jesus Cristo.
A iniciação cristã constitui um
processo em vista de um encontro cada vez maior com
o Filho de Deus (DAp 289). Este processo se inicia por
um encontro inicial com o Mestre de Nazaré através
do anúncio salvífico (querigma) e da ação
missionária da comunidade, ao qual se segue a
resposta correspondente na mudança de vida (conversão)
que se desenvolve gradativamente ao longo do discipulado,
alimentado pela catequese e pelos sacramentos. Naturalmente
todo este processo acontece na comunidade e deveria
propiciar uma autêntica experiência eclesial,
fortalecida pelo empenho apostólico (missão)
do cristão (DAp 280). Naturalmente estes elementos
da iniciação cristã, acima descritos,
acontecem simultaneamente e sua seqüência
não deve ser considerada como sua única
modalidade, já que o texto de Aparecida urge
que se ofereçam modalidades (no plural) de iniciação
cristã (DAp 287).
Observo que esta temática, no Documento de Aparecida,
aparece estreitamente vinculada com a recepção
de sacramentos, como, aliás, se dava na época
patrística. O texto dos Lineamenta repete o mesmo
(L 18), mas já insiste também na evangelização
e no anúncio (L 19), o que é muito necessário
em nossos dias. Esta iniciação vai dirigida
seja aos que se preparam para o batismo, seja para os
já batizados, mas afastados, seja mesmo para
os não batizados que buscam conhecer a fé
cristã. Deste modo poder-se-ia pensar também
em modalidades mais informais, menos ligadas visivelmente
à instituição eclesial, com maior
facilidade de penetração em certas mentalidades
e ambientes, abertas ao diálogo com os que pensam
diferente, as quais poderiam desfazer ignorâncias
e preconceitos e possibilitar assim um encontro significativo
com a pessoa de Cristo que os traria gradativamente
à Igreja.
Normalmente a iniciação cristã
deverá ter lugar na paróquia onde as pessoas
têm maior contato com a Igreja Católica.
Mas devido a uma pastoral sacramentalista os católicos
vêem na paróquia apenas uma entidade de
prestação de serviços, sobretudo
de oferta de sacramentos. Consequentemente a instituição
paroquial deverá sofrer mudanças para
se adequar às necessidades de hoje, como já
haviam apontado os bispos em Aparecida (DAp 518). A
configuração paroquial a serviço
da iniciação da vivência cristã
não surgirá dos livros de teologia, mas
das experiências concretas realizadas e devidamente
avaliadas, e que exigem coragem e ousadia.
5. Igreja Local e comunidades menores
Entendemos por Igreja Local não somente uma diocese,
mas também dioceses de uma região dotada
de características socioculturais semelhantes
e, portanto, com iguais desafios. Pode ser um regional
da CNBB, a própria Igreja no Brasil, ou mesmo
a Igreja Latino-americana. Como enfatiza o texto dos
Lineamenta: “O anúncio, a transmissão
e a experiência viva do Evangelho nela se realiza”
(L 15). Hoje a Igreja Local tem grande importância.
Pois ela experimenta por primeiro as dificuldades provindas
da sociedade, que mesmo afetando a Igreja Universal
são captadas e sentidas concretamente no contexto
próprio da Igreja Local. Ao respondê-las,
a Igreja Local não só procura resolver
seu problema particular, mas ainda oferece às
demais a sua contribuição para os desafios
que atingem também às demais Igrejas.
Como afirma o Concílio Vaticano II, a Igreja
Local deve oferecer às demais os seus dons em
vista de maior plenitude (LG 13). Quanto mais a Igreja
Local se insere em seu contexto sociocultural em vista
de sua missão evangelizadora, tanto mais ela
ajudará seus membros a viver como cristãos
naquele contexto. Mas também tanto mais poderá
ela enriquecer a Igreja Universal ao contribuir com
novas formas de pastoral e de organização,
com novas expressões de espiritualidade e de
culto, com a “variedade dos cargos e dos ministérios
que a compõem” (L 15). Aqui está
o sentido último da convocação
de um Sínodo Episcopal: ajudar o Santo Padre
no difícil e complexo ministério petrino
em prol da Igreja Universal, seja através das
experiências em curso ou das sugestões
enviadas, acolhidas ou não pelo governo central
da Igreja.
Tanto o Documento de Aparecida (DAp 100; 197) como os
Lineamenta (L 15) não escondem os problemas enfrentados
hoje pela Igreja. Não iremos repeti-los. Mas
gostaríamos de enfatizar um deles. Vivemos numa
época de intenso individualismo, de forte concorrência
entre pessoas, de exagerada pressão social por
produtividade e eficiência, de incontrolável
aceleração do tempo, características
que tornam nossos contemporâneos solitários
e carentes de vínculos sociais e afetivos. Além
disso, as pessoas hoje estão cansadas de discursos,
múltiplos e desencontrados, que prometem felicidade
e bem-estar e cujos efeitos não se fazem sentir.
É bem conhecido em nossos dias o descrédito
generalizado com relação às instituições
estabelecidas e a própria Igreja não escapa
desta mentalidade, agravada pelos recentes escândalos
noticiados pela mídia.
Daí ganhar o fator “experiência pessoal”
uma grande importância em nossos dias. Esta afirmação
vale ainda mais para o desafio da nova evangelização.
Sem uma autêntica experiência do que é
Igreja não conseguiremos motivar leigos e leigas
a participar na vida e na missão da Igreja. Como
afirma o Documento de Aparecida: “Nossos fiéis
procuram comunidades cristãs, onde sejam acolhidos
fraternalmente e se sintam valorizados, visíveis
e eclesialmente incluídos” (DAp 225b).
E na mesma linha continua: “São elas o
ambiente propício para escutar a Palavra de Deus,
para viver a fraternidade, para animar na oração,
para aprofundar processos de formação
na fé e para fortalecer o exigente compromisso
de ser apóstolos na sociedade de hoje”
(DAp 308). Pois comunidade implica necessariamente convívio,
vínculos, afetividade, solidariedade, mútuo
conhecimento e confiança. Daí a urgência
de comunidades menores. Através delas a Igreja
poderá “chegar aos afastados, aos indiferentes
e aos que alimentam descontentamento ou ressentimentos
em relação à Igreja” (DAp
310).
Os bispos em Aparecida sentiram a necessidade de se
reformularem as estruturas paroquiais (DAp 172). Aconselham
“a setorização em unidades territoriais
menores, com equipes próprias de animação
e coordenação que permitam maior proximidade
com as pessoas e os grupos que vivem na região”
(DAp 372). No fundo é todo um processo de descentralização
em marcha, que deve valorizar as experiências
em curso e ousar iniciativas significativas a partir
de uma primordial “decisão missionária”
(DAp 365). Conhecemos já os frutos obtidos através
da implantação das Comunidades Eclesiais
de Base em muitas dioceses, sensíveis aos respectivos
contextos socioculturais e fiéis à Palavra
de Deus (DAp 178). Mas existem outras modalidades válidas
de pequenas comunidades, grupos de vivência cristã,
de oração e de reflexão da Palavra
de Deus (DAp 180), ou simplesmente grupos cristãos
com desafios comuns que buscam comunitariamente soluções
à luz da fé. Aqui devemos acrescentar
os movimentos eclesiais e as novas comunidades que possibilitam
para muitos um “encontro vital com Jesus Cristo”
e uma “ativa participação na vida
da Igreja” (DAp 312).
A paróquia se torna assim “uma rede de
comunidades e grupos” (DAp 172), ganhando maior
força missionária (DAp 173). Importante
é que tais comunidades e movimentos mantenham
profundo vínculo e obediência à
Igreja Local, não só com relação
à fé, mas ainda com relação
à orientação pastoral da diocese
(DAp 313). Outra condição é que
saibam conviver com outros grupos de carismas diferentes,
que não devem ser vistos como competidores, mas
enriquecedores da unidade eclesial que se realiza na
diversidade. “Há diversidade de dons, mas
o Espírito é o mesmo” (1Cor 12,4).
Nada disso, contudo, verá a luz se o clero carecer
de maturidade humana e espiritual para saber trabalhar
com o laicato, num espírito de diálogo,
de serviço, de abertura, sabendo valorizar carismas
alheios e se deixar interpelar pelos outros, sendo assim
“discípulos em comunhão” (DAp
324). Tarefa nada fácil em nossos dias!
É importante também que a afirmação
de Aparecida considerando os leigos/as como “verdadeiros
sujeitos eclesiais” (DAp 497a), se, por um lado,
pede deles uma melhor formação religiosa
(DAp 212) e cultural (DAp 492), por outro, destaca que
eles devem gozar de maior autonomia e participação
em ministérios e responsabilidades, “com
ações no campo da evangelização,
da vida litúrgica e de outras formas de apostolado”
(DAp 211) de tal modo que sejam “parte ativa e
criativa na elaboração e execução
de projetos pastorais” (DAp 213), participando
“do discernimento, da tomada de decisões
e, do planejamento e da execução”
(DAp 371). Tudo isto lhes compete pelo batismo, sendo,
portanto, sujeitos eclesiais, não funcionalmente,
mas constitutivamente.
Hoje a internet nos trouxe a cultura cibernética
e ouve-se falar de “comunidades virtuais”.
Como avaliá-las em confronto com o que vimos
até aqui? Sem dúvida a internet possibilita
à proclamação cristã atingir
um auditório vastíssimo, mas sem poder
impedir a presença de deturpações
graves da fé cristã. A ausência
de uma comunidade eclesial física priva o internauta
de outras mediações da fé como
as celebrações comunitárias, as
atividades pastorais, assistenciais e sociais, os testemunhos
de vida cristã, bem como de tudo o que aprendemos
de uma convivência humana. As comunidades virtuais
podem se constituir como comunidades demasiadamente
particulares e homogêneas por se guiarem pelos
interesses próprios de seus membros. Não
negamos, entretanto, que a participação
numa comunidade virtual possa ser o primeiro passo para
uma pertença posterior a uma comunidade real.
Há blogs dirigidos por sacerdotes com resultados
surpreendentes no campo da oração e da
orientação espiritual.
Ainda uma observação. Afirma o Concílio
Vaticano II : “Não se edifica no entanto
nenhuma comunidade cristã se ela não tiver
por raiz e centro a celebração da Santíssima
Eucaristia” (PO 6). Já o Documento de Aparecida
faz eco a estas palavras quando assevera que “todas
as comunidades e grupos eclesiais darão fruto
na medida em que a Eucaristia for o centro de sua vida
e a Palavra de Deus o farol de seu caminho” (DAp
180). Entretanto a realidade eclesial hodierna nos oferece
numerosas comunidades eclesiais privadas da eucaristia
pela escassez de ministros ordenados. Esta questão
é realmente séria e deveria, mais uma
vez, aparecer nas respostas das Igrejas Locais às
perguntas dos Lineamenta.
6. Igreja e realidade sociopolítica
Sem dúvida alguma, passado o tempo da ditadura
militar e das fortes tensões ideológicas,
com a melhoria das condições de vida para
muitos na sociedade, a Igreja experimentou que outras
vozes vieram se juntar a sua na luta pelos mais pobres
e marginalizados. Para alguns ela somente perdeu certo
destaque na mídia; para outros ela diminuiu seu
empenho social pelas críticas a algumas teologias
da libertação por parte de Roma e pelas
suspeitas que caíram sobre os mais comprometidos
na causa dos mais fracos. Talvez por isso o Documento
de Aparecida não só afirma serem “os
pobres os destinatários privilegiados do Evangelho”
(DAp 550), não só renova a opção
por eles (DAp 392), mas urge ainda gestos concretos
que realmente a comprovem, dedicando-lhes tempo e atenção
(DAp 397), proximidade e amizade (DAp 398).
De fato, os pobres são importantes para manter
a Igreja fiel ao espírito do Evangelho. Pois
o espírito do mundo a assedia continuamente por
uma valorização excessiva de honras, poder,
bens materiais, garantias de segurança, que podem
afastá-la da sobriedade própria da mensagem
cristã. Certa mentalidade individualista e consumista
fortemente presente na sociedade não deixa de
nos atingir, clero, vida religiosa, laicato, constituindo
mesmo um sério problema na formação
dos atuais seminaristas.
Ainda uma observação. O agir político
não decorre linearmente da moral, pois deve passar
necessariamente pelo que Bento XVI chama de “mediações
institucionais da polis” (Caritas in Veritate
7). De fato, o cristão encontra sempre uma sociedade
já organizada, com sua história, seus
processos constitucionais, suas estruturas sociais,
seus partidos políticos, sua linguagem própria.
Uma ação política deve ser concreta,
apresentar um programa bem determinado, alianças
táticas, meios à disposição.
Tudo isto pode ser visto diferentemente dado o fato
que vivemos numa sociedade pluralista, onde cada um
pode ter uma percepção diferente da ação
política a ser realizada. O cristão não
pode ceder de modo simplório ao “maniqueísmo
político”, nem cair na tentação
do “evangelismo político” que identifica
a fé cristã com alguma opção
política concreta (GS 43).
Deste modo, respeitada a doutrina e a moral da Igreja
Católica, certa diversidade neste campo, pode
surgir não só no laicato, mas também
na hierarquia. Pois inevitavelmente os bispos apresentam
uma pluralidade de experiências, de contextos,
de formações, de teologias, de preocupações,
de leituras da realidade, que naturalmente os levam
a avaliações diferentes e, portanto, a
atuações diferentes diante de uma situação
determinada. Logo pode um bispo emitir sua opinião
pessoal, em nome próprio e para seus diocesanos,
sobre temas da vida política, como observa a
Nota da CNBB por ocasião das últimas eleições
(08/10/2010). Enfatizo esta questão, pois julgo
que devemos lutar pelo advento de uma mentalidade que
respeite mais a diversidade no interior da Igreja, inevitável
em nossos dias, por parte dos católicos e das
católicas, educados talvez a confundir unidade
com uniformidade.
Termino estes simples comentários aos Lineamenta
agradecendo a todos pela atenção e pela
paciência com que me ouviram. Muito obrigado.
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Apresentação
A crise (financeira de 2008) pode “dar à
luz” a um novo modelo de economia? Ela é
sintoma de um modelo de desenvolvimento econômico
e social que dá sinais claros de esgotamento.
Todavia os Estados Nacionais não parecem demonstrar
vontade política de estabelecer um regramento
para o mercado internacional de capitais (como ocorreu
em outras crises), nem tampouco, revelaram em Copenhague
uma escuta do que a natureza está a reclamar.
Essa conjuntura internacional traduz a atualidade da
Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010: “Economia
e Vida”.
A sociedade tem buscado construir alternativas, seja
por meio do Fórum Social Mundial, seja pela iniciativa
da Assembléia Popular do Brasil, oriunda das
Semanas Sociais Brasileiras, que caminha para sua segunda
edição nacional, em maio de 2010. Nestes
dois processos políticos significativos o tom
é de construção de um projeto popular
para o Brasil que revele uma nova meta-síntese
e que reveja o modelo de desenvolvimento, atento aos
“sinais dos tempos” que a natureza tem profetizado
com os fenômenos oriundos da mudança climática.
Outro exemplo foi a realização em abril
último, na América Latina, da Conferência
Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas,
com a participação de mais de 20 mil pessoas.
A atuação do presidente norte-americano,
Obama, ainda é objeto de muitas e contraditórias
análises. A esperança de mudanças
estruturais nas relações dos Estados Unidos
com o conjunto dos países e Blocos no mundo ainda
está a desejar. O que podemos esperar?
Na América Latina e Caribe, passando pela tragédia
do Haiti, situação de Honduras, quadro
de violência na Colômbia, parece revelar
uma nova estratégia do Estado Norte-Americano
para o continente (mesmo distanciando-se do discurso
do presidente Barack Obama): a chamada “segurança
democrática”, que traz em seu bojo a militarização
e a construção de polarizações
que possam privilegiar o estabelecimento de acordos
bilaterais com os Estados Unidos, inibindo a possibilidade
de novas articulações neste espaço
geopolítico, que desejam afirmar a democracia
social com soberania.
No contexto brasileiro, abordamos a situação
de desigualdade e pobreza, como se deu o papel do Estado
brasileiro neste contexto para o enfrentamento da crise
financeira internacional de 2008. O debate sobre Direitos
Humanos terá na pauta da Assembléia um
tempo específico, que está sendo preparado
por uma Comissão de Bispos e assessores. Além
disso, o Projeto da Ficha Limpa mostra sua capacidade
de mobilizar o debate pré-eleitoral, influenciando
e pressionando o Congresso para sua aprovação
para aplicação ainda neste ano. Para reflexão
sobre o quadro eleitoral utilizaremos uma entrevista
oferecida pelo professor doutor Luiz Felipe de Alencastro,
que apresenta não apenas o quadro das eleições,
como lança desafios para o país após
as eleições.
Buscando construir um projeto para o país, será
realizada em maio a II Assembléia Popular Nacional
em Brasília, que vivencia desafios importantes
para encontrar unidade. A perspectiva é se que
se possam assimilar novas contribuições,
fruto do crescimento da consciência sobre a necessária
sustentabilidade de um projeto de desenvolvimento nacional,
diante do avanço do Aquecimento Global, respeitando-se
os biomas e valorizando as experiências que apontam
para uma nova economia. Ilustrando a profundidade desse
debate, segue a reflexão sobre a Hidrelétrica
de Belo Monte, que desde a sua proposta inicial enfrenta
resistência dos setores sociais da Amazônia,
que encontram em Dom Erwin, Bispo do Xingu e presidente
do CIMI, sua voz profética.
Finalizamos a Análise com as Notícias
do Congresso, avaliando quais são as principais
preocupações dos parlamentares brasileiros,
bem como com notícias sobre a tramitação
de iniciativas legislativas de interesse e temas que
tendem a ocupar a cena dos debates nos próximos
meses.
1. Internacional: a crise pode ser parteira do novo?
O modelo atual de consumo é insustentável.
A Humanidade dispõe de recursos para garantir
o atendimento das necessidades humanas com menos desperdício
de recursos e mais igualdade (condição
para paz). Nesta perspectiva a temática da Campanha
da Fraternidade Ecumênica é atualíssima,
com o tema: “Economia e Vida” e, com o lema:
“não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”.
A crise financeira internacional de 2008, não
prevista pelos grandes economistas do neoliberalismo,
permitiu um profundo questionamento do modelo do capitalismo
neoliberal, modelo de desenvolvimento econômico
hegemônico dentro da Globalização.
Muitos pensadores e pensadoras acreditam que vivemos
uma crise de civilização.
Tal fenômeno e seus desdobramentos (na maioria
dos países, foram os Estados Nacionais que socorreram
os bancos e financeiras para que não quebrassem),
revelaram que o Mercado não “regula”
a economia e há necessidade de estabelecer critérios
de regulamentação da conduta dos investidores
globais. Com a crise, o Fórum Econômico
de Davos perdeu força, enquanto houve um fortalecimento
dos espaços de formulação de alternativas
ao sistema neoliberal dominante; assim cresceu a importância
e a responsabilidade dos participantes do Fórum
Social Mundial.
Houve o estímulo a novas proposições
e estudos, visando tratar a crise como “oportunidade”;
os efeitos, porém, na maioria dos países
centrais no capitalismo internacional ainda são
recessão e desemprego, com queda abrupta de renda.
Ilustra a situação, a quase bancarrota
da Grécia. “O problema é que não
é só a Grécia; os bancos europeus
estão atolados em cerca de US$ 2 trilhões
em dívidas dos chamados Piigs: Portugal, Irlanda,
Itália, Grécia e Espanha” .
No Brasil há a experiência de como a crise
das exportações em 1929 permitiu a indústria
nacional deslanchar. O exemplo ilustra o lado decisivo
da pergunta: condição para a crise gerar
o novo, é a quebra do poder dos “velhos”
interesses.
A crise de 1929 encaminhou o “novo” porque
debilitou o “velho”. A burguesia agrária
não tinha mais cacife contra a ação
modernizante do Estado; era mais realista ceder os anéis
e garantir os dedos. O que não reduz a competência
de Vargas e sua equipe. Mas a correlação
de poder mudou.
Os Estados nacionais – desta vez, quanto possível
unidos na ação – poderiam intervir
para coordenar os fluxos financeiros internacionais;
como nos anos 30, cada um agiu com maior, menor (ou
nenhum) sucesso, no seu âmbito; mas agiram! Não
parece que se caminha para lá.
Os fluxos financeiros continuam na ordem de dez vezes
a riqueza real gerada. Os bancos voltam aos comportamentos
causadores da crise e (parcialmente) reprimidos durante
ela. Continuam apostando em que os governos os resgatarão
se insolventes, porque sua quebra transtornaria demais.
Na Argentina, o Banco Central derrota a presidência
da República (sem entrarmos no mérito
das pretensões dela). Passo no enfraquecimento
do Estado nacional, os EUA terceirizam a pesquisa espacial.
Este campo de avanço da Humanidade caberia melhor
a uma colaboração interestatal mundial;
até para a construção da autoridade
mundial democrática, participativa, com que sonhava
João XXIII. Mas passa para o controle do capital,
sob “leis do mercado”.
Outro fracasso do parto do “novo” se deu
em Copenhague. Qualquer acordo sobre o clima seria complexo
e se teria de negociar duramente. Mas não houve
acordo ruim; não houve acordo! Falta vontade
política; questão de poder. O grande capital
não quer ser limitado pelo cuidado do ambiente,
externo às “leis do mercado”, que
restringe o lucro, critério da “economia
correta”. Nessa lógica, a realidade é
“artificial”; e “naturais” são
as estruturas históricas.
De qualquer modo, a resistência altermundista
se organizou e promoveu em abril a Conferência
Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas
e os Direitos da Mãe Terra. As decisões
saídas da Conferência dos Povos não
são vinculantes, porém, elas contribuíram
para apresentar um projeto de declaração
dos Direitos da Mãe Terra, além de uma
proposta de referendo mundial dos povos sobre as mudanças
climáticas, sendo criado um plano de ação
para avançar na construção do Tribunal
de Justiça Climática. Também foram
definidas estratégias de ação para
defender a vida e a Mãe Terra frente às
mudanças no clima. A própria ONU já
reconhece uma nova categoria de refugiados: os refugiados
do clima!
Para onde vai Obama?
Obama assumiu a presidência dos EUA no meio da
maior recessão desde a depressão dos anos
30, com 800.000 mil novos desempregados, uma grave crise
econômica e financeira, e o país envolvido
em guerras indefinidas. Assumiu o poder com alta popularidade
(80%) e com apoio da Câmara e Senado.
Queria renovar a prática política em Washington.
Todavia, se não fossem as recentes vitórias
obtidas com a aprovação da reforma do
sistema de saúde (final de março) e o
tratado de desarmamento nuclear (começo de abril),
o balanço seria de desilusão. A composição
do governo se deu com representantes da continuidade
conservadora.
Violentamente atacado na mídia por grupos republicanos
(que não aceitam a sua raça, as suas origens
e seu programa), o presidente encontra muita resistência,
até nas fileiras dos democratas, para concretizar
o seu projeto de governo e realizar suas promessas eleitorais.
Na política internacional, os passos são
lentos. Hillary Clinton está bem aquém
dos objetivos do presidente. Em 2009, na África
(em Accra, no Gana), no Cairo, em Praga e em Moscou,
Obama fez discursos profundamente renovadores, nos quais
indicava os fundamentos duma nova política de
relações internacionais construída
não mais sobre a dominação e a
guerra, mas sobre o diálogo e o respeito das
soberanias.
Até agora – exceto o acordo com a Rússia
para a redução do armamento nuclear –
o presidente não conseguiu avanços. No
Oriente médio, o diálogo da paz está
no ponto morto. Israel declarou que continuaria a instalação
de colônias na Cisjordânia e em Jerusalém
e que não pode aceitar a formação
de um Estado palestino. É a negação
de qualquer possibilidade de negociação.
Na campanha eleitoral Obama tinha prometido de acelerar
a retirada das tropas do Iraque (115.000 soldados) até
agosto de 2010. Agora, fala-se de agosto de 2011 ou
mais tarde. No Afeganistão, a situação
é ainda mais difícil. Na esperança
de vencer mais rapidamente os talibãs, Obama
enviou 30.000 soldados a mais. É neste contexto,
nada pacífico, que o presidente recebeu o prêmio
Nobel da paz. Foi controvertido, pois Obama defendeu
a guerra justa ao recebê-lo.
A grande batalha inicial do mandato ia ser a universalização
do sistema de saúde. Foi uma vitória “histórica”
do governo contra as crescentes desigualdades. O plano
de reaquecimento econômico, porém, não
engata e o alto desemprego não diminui. No rasto
da reforma da saúde, o presidente já anunciou
o lançamento dum projeto de profunda reforma
da educação. Essa não deveria ser
muito difícil de conseguir.
Mas muito mais difícil será a reforma
financeira. Os bancos americanos apresentam uma insolente
saúde a pesar da crise. Wall Street registra
lucros históricos e, enquanto a crise aumenta
o desemprego, os bancos distribuem bônus recorde.
A atitude dos bancos irrita o presidente.
A energia limpa e a questão ambiental figuraram
entre as promessas da campanha eleitoral. No entanto,
em Copenhague, em dezembro de 2009, não houve
acordo sobre a necessidade de metas compulsórias,
pois os dois gigantes (EUA e China) quiseram preservar
a sua soberania.
Dezesseis meses depois da investidura, Obama continua
a ser um enigma para muitos. Para onde vai o presidente?
se perguntam os editorialistas. Para os seus colaboradores
mais próximos, o presidente Obama é um
homem de convicção, calmo e determinado.
Quer redemocratizar a vida política presa nos
inúmeros e poderosos lobbies em Washington. Aos
seus seguidores, o presidente Obama quer mostrar que
não abandonou nada dos seus princípios
e de suas idéias em favor da democracia e da
justiça. Obama representa o que o sistema norte-americano,
bem conservador, pode produzir de mais avançado
atualmente. Se não houver alguns avanços
na recuperação econômica com criação
de empregos, o presidente pode nas eleições,
em novembro de 2010, perder a maioria na Câmara,
e até no Senado.
2. América Latina: “Segurança Democrática”
versus Democracia social com soberania interna e externa
Em visita ao Brasil, em março, a secretária
de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, expressou
sua concepção de democracia, quando declarou
que “estava esperando nova partida do governo
venezuelano para restaurar a propriedade privada e a
economia de mercado”. Isto significa concretamente
a privatização da economia com abertura
dos mercados sob os auspícios de um tratado ou
acordo de livre comercio, e até a dolarização
da economia. Essa declaração se insere
na política histórica da intervenção
norte-americana nos países que o presidente Monroe,
já em 1823, considerava como “quintal dos
Estados Unidos”. O objetivo declarado consiste
em estabelecer uma “segurança democrática”
que proteja os interesses do capital norte-americano:
empresas transnacionais, propriedade intelectual (as
patentes), ampliação de bases militares
e reativação da Quarta Frota da Marinha
americana.
A posse de Obama na presidência dos Estados Unidos
assinalava nova postura política em relação
com os países da América latina no sentido
de mais respeito às soberanias nacionais, com
perspectivas de parcerias nas relações
entre Estados. Entretanto, a secretária de Estado
dos Estados Unidos, Hillary Clinton, apoiou os golpistas
em Honduras, voltando às práticas políticas
dos anos 60 e 70 que consiste em contribuir com a tomada
de poder de uma fração das classes dominantes
para facilitar o processo de globalização
(neo)liberal favorável ao capital norte-americano.
Essa política externa se revelou no caso emblemático
de Honduras, o apoio logístico da base militar
de Palmerola, a mais importante na América Central,
e o apoio político do embaixador que, em 2002,
foi encarregado dos negócios andinos no Conselho
Nacional de Segurança em Washington na época
do golpe de Estado contra Hugo Chavez. Neste contexto
meio-intervencionista, qual é o futuro da democracia
na Bolívia e no Paraguai? Visto que esses países
sofrem pressão interna por parte das classes
dominantes tradicionais com apoio dos Estados Unidos.
Na Bolívia, Evo Morales saiu vitorioso nas eleições
regionais. A oposição que fica nas regiões
mais ricas do país e por isso se declarava ontem
separatista e/ou autonomista perdeu espaço político.
Quer seja no desfecho da crise de Honduras ou na organização
da reconstrução de Haiti, nem a ONU, nem
a OEA, nem a UNASUL (União das Nações
Sul-Americanas) tiveram e têm os meios políticos
para atuar. No caso de Haiti, ficou claro que não
há ajuda humanitária sem controle e intervenção
militar. Não é por acaso que a ajuda humanitária
norte-americana se acompanhou de uma força-tarefa
de 10.000 fuzileiros navais no controle do aeroporto
e das instalações portuárias. Hillary
Clinton prometeu um bilhão de dólares
para a reconstrução do país. Para
os Estados Unidos, é uma tentação
voltar aos velhos costumes de controlar o governo local,
suspeito de corrupção, em vez de tratar
o governo local como parceiro. Washington pensa evitar
a repetição de erros do passado pela instituição
de uma “comissão interina para a reconstrução”
que seja co-presidida pelo Primeiro ministro haitiano
e pelo ex-presidente Bill Clinton. A pimenta da história
é que sob a presidência de Bill Clinton,
a política comercial norte-americana contribuiu
ao desabamento da agricultura haitiana por causa da
importação de arroz americano mais barato
que o produzido localmente. Nem todos ficam convencidos
de que o governo norte-americano não esteja impondo
uma tutela sobre o Haiti sob a cobertura de “parceria”.
O bilhão prometido ainda não foi disponibilizado.
Em contraponto, pesquisadores reunidos num seminário
na universidade de Nottingham, tentavam interpretar
as vitórias eleitorais de uma esquerda ou centro-esquerda
em muitos países da América latina. Expectativas
populares alimentaram a perspectiva da perda efetiva
do poder das classes dominantes. Mas, a história
não evidencia nenhum caso de renúncia
voluntária por parte da classe dominante, da
sua posição de poder. Transformar as relações
de propriedade e de classe exige uma mudança
da ordem institucional para garantir a soberania interna
e externa. Dentro do quadro de democracia liberal baseada
sobre a propriedade, não há como garantir
as liberdades democráticas das classes empobrecidas,
e especialmente das populações indígenas
e de suas propriedades comunitárias. No Peru,
nestes últimos anos, as forças do mercado
e a promoção de grandes investimentos
se reforçaram em detrimento da proteção
do direito de propriedade da terra das comunidades camponesas.
Um artigo de Alan Garcia “El síndrome del
perro del hortelano” é esclarecedor dessa
visão nitidamente excludente das pequenas formas
de produção, principal causa dos últimos
conflitos como o do massacre de Bagua, em 5 de junho
de 2009.
Para assegurar os direitos das grandes maiorias das
populações, é preciso mudanças
constitucionais. Nesta luta, cumprem um papel central
as lideranças carismáticas, mas sem negar
o papel de milhões de cidadãos. A relação
entre o líder e o povo provoca perplexidade,
mal-estar, pânico e raiva na cabeça de
políticos conservadores e céticos diante
das reformas políticas e sociais. Entretanto,
não há como garantir mudanças significativas
sem romper com o modelo dominante de democracia liberal
e a sua “segurança democrática”.
A democracia é social ou não é
para todos.
As vitórias eleitorais e a posse de políticos
de esquerda ou centro-esquerda não garantem mudanças
muitas vezes prometidas na campanha eleitoral e nos
discursos de posse. Existe um hiato entre o poder político
conquistado legitimamente pelas urnas e o poder de fato,
econômico. Estar no governo não significa
ocupar efetivamente o poder. Isto é verdade não
só para os chamados políticos de esquerda,
mas vale também para Obama. As elites tradicionais
do campo liberal-conservador (republicano nos Estados
Unidos) não abrem mão do seu domínio
e das suas riquezas, não aceitam alternância
do poder econômico e político, pois, para
essas elites, não existe e nem pode existir outro
modelo que aquele que põe a economia como única
no centro de toda ação e decisão
política. Será que, nesta situação
que não é conjuntural, mas estrutural,
a Campanha da Fraternidade deste ano “Economia
e vida” tem alguma pertinência para nós?
Neste contexto de bipolarização social
e política, a mídia exerce papel significativo,
seja por suas informações tendenciosas,
seja por seu silêncio proposital ou imposto. Acusações
de censura, de desrespeito à liberdade de imprensa
são lançadas dos dois lados. A Sociedade
interamericana de imprensa denuncia que na Venezuela,
Bolívia e Equador, há restrições
à liberdade de expressão dos canais privados
de comunicação, mas se omite, silenciando,
diante da suspensão e redução ao
silêncio das emissoras locais e internacionais
pelos golpistas na Venezuela e recentemente em Honduras.
Neste país, houve pouco eco sobre denuncias de
agressão aos direitos humanos e morte de líderes
sociais. Grupos paramilitares foram chamados, seguindo
o exemplo da Colômbia, para reprimir a oposição
e, hoje, constituem um problema para a segurança
interna.
Pela militarização e intervenções
diversas dos Estados Unidos, a “segurança
democrática” assinala um déficit
ou recessão democrática. Mas, na verdade,
é também sinal de enfraquecimento das
democracias latino-americanas incapazes de regular os
seus conflitos sem recorrer aos Estados Unidos. Estes
contribuem e alimentam a bipolarização
social e política das sociedades latino-americanas.
Não é para hoje que vai ser possível
dispensar a OEA para resolver as tensões e os
desacordos na América do Sul. A UNASUL e o Grupo
do Rio são instituições que carecem
de legitimidade e de real soberania livre das influências
norte-americanas. A integração latino-americana
exige soberania interna e externa. Será que existe
uma vontade política das elites para avançar
neste caminho mais esperançoso para o Continente?
3. Brasil: desigualdade e papel do Estado, eleições
2010, direitos humanos, Ficha Limpa e, II Assembléia
Popular e Belo Monte
Desigualdade, pobreza e o papel do Estado
Já é mais ou menos lugar comum, que a
renda e riqueza no Brasil se concentram devido à
forma como se deu nossa industrialização,
substituindo importações para atender
à demanda pré-existente. Para fazê-lo,
a indústria nacional deveu copiar (com certo
atraso) o uso de tecnologia e de mão de obra
qualificada vigente nas economias desenvolvidas (sem
esquecer as máquinas e produtos semi-acabados
que tinham que ser importados).
Ora, hoje assistimos ao aprofundamento da desigualdade
com certa redução da pobreza, graças
a duas novidades importantes que diversificam e matizam
a descrição do que ocorreu por décadas.
Cresceu percentualmente a parcela da renda financeira
no bolo total; a nova disputa distributiva entre rendas
financeiras e da produção se sobrepõe
àquela anterior, entre fatores de produção
“nobres” e “pobres”. A concentração
de renda e riqueza continua e tende mesmo a aumentar,
no conjunto da economia.
Dentro do setor produtivo real, os fatores “nobres”
(gerentes e técnicos de diversos níveis,
mão de obra mais qualificada) que recebiam renda
em salários, conseguem negociar novas formas
de remuneração. Estas bonificações
ou participação nos lucros tornam-se parte
crescente daquela renda. Em conseqüência,
a massa salarial estatisticamente se distribui melhor,
mas porque os fatores “pobres” continuam
a receber salários, enquanto rendas “nobres”
se transferem para outros itens contábeis.
Ao mesmo tempo, há um dado novo, efetivo, mas
ainda longe de mudar substancialmente a resultante de
forças. As políticas compensatórias
dos últimos dezesseis anos – e mais do
governo atual - têm ampliado o mercado de bens
populares, estimulando a pequena economia local a empregar
mais – precisamente fatores “pobres”
de produção. O mais importante aqui não
é o acréscimo da renda popular distribuída
diretamente pela assistência governamental. É
mais seu impacto no emprego e na estrutura produtiva.
O Brasil atravessou a crise internacional menos danificado
que a maioria dos países, graças a estes
dois vetores opostos, mas complementares da política
econômica:
- a política macroeconômica no figurino
do “Consenso de Washington”, favoreceu os
setores financeiros, mas passou aos “mercados”
(leia-se à finança internacional) a imagem
estável e confiável do Brasil;
- as políticas anti-cíclicas: política
de aumento sistemático do salário-mínimo
acima da inflação, renúncia fiscal
(IPI, por exemplo), ampliação do crédito
(via Bancos Estatais: BDNES, Banco do Brasil, Caixa
Econômica Federal, por exemplo) e políticas
compensatórias ampliaram “por dentro e
de baixo para cima” o mercado interno.
A pergunta, se agora a partir disto é possível
a passagem a uma nova fase, de mudanças estruturais
para mais igualdade interna e mais autonomia nacional,
daria agenda a um debate acadêmico fascinante.
Mas a resposta real depende de política e poder,
essencialmente da capacidade de organização
dos movimentos populares e de sua articulação
com o “estritamente político”: eleições,
partidos, Estado.
Podemos entrever como provável uma guinada gradual
no papel do Estado.
O discurso dos candidatos não garante o que hão
de fazer. Nem sempre os eleitos têm vontade –
ou cacife – políticos para realizar o que
aliados e apoiadores esperam, adversários e críticos
temem. Mas a tendência parece real; o próprio
“mercado” – revelam seus órgãos
formadores de opinião - começa a percebê-la,
suspeitar dela ou temê-la.
Para exemplificar, podemos citar a aplicação
real do orçamento brasileiro em 2009: 36% dos
recursos foram para o pagamento dos compromissos com
a Dívida Pública, que no ordenamento jurídico
brasileiro não tem limites. Essa situação
está profeticamente denunciada no texto-base
da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano.
Com o risco de anacronismo, podemos falar de um “neovarguismo”
econômico. A formação ideológica
de Vargas ia na direção do liberalismo
econômico (embora, por influxo positivista, não
do liberalismo político). Mas os impasses da
indústria nascente de então, o decidiram
a instaurar setores de capitalismo estatal para remover
os bloqueios de que a iniciativa particular não
dava conta. Algo parecido se pode entender das manifestações
da candidata.
Também nas questões sociais da desigualdade
e da pobreza veríamos o Estado ampliar o leque
e a intensidade de seu impacto promotor e interventor.
“The Economist” em artigo recente analisa
que o sucesso no enfrentamento da crise teria reacendido
no governo a crença no papel do Estado. “Wall
Street Journal”, mais rigidamente neoliberal,
alerta os leitores a moderarem o entusiasmo pelo Brasil,
em vias de deixar o bom caminho.
O debate a respeito já começou entre economistas
brasileiros dependendo do lugar socioeconômico
de onde falam e levando em conta que também qual
é a candidatura que defendem.
Eleições 2010
Sobre o quadro das Eleições presidenciais
de 2010, vamos compartilhar trechos de uma entrevista
que o titular da cadeira de História do Brasil
na Sorbonne, Professor Doutor Luiz Felipe de Alencastro
concedeu ao Jornal Valor Econômico, no dia 09/04/2010
, que traz reflexões sobre o quadro eleitoral
que se aproxima e para pensar o país, seja qual
for o resultado das eleições. Recordamos
também que está sendo organizada uma cartilha
com orientações para as eleições
2010, realizada por iniciativa do CEFEP, CBJP, CNLB,
Pastorais Sociais e IBRADES.
Para o historiador e cientista político Luiz
Felipe de Alencastro, os cenários políticos
que podem emergir das urnas, em outubro, contêm
elementos preocupantes, seja quem for o vencedor.
O ex-governador, José Serra, tem “muita
experiência” e é “um grande
líder”, todavia tem “um problema
sério”, derivado da dificuldade de formular
uma proposta que se diferencie de políticas que
se mostraram bem-sucedidas no governo Lula. Essa situação
pode trazer certo conforto para a candidata do PT. Todavia,
“está aí outro motivo de inquietação”,
pois “não é sadio para país
nenhum a ausência de alternância política”.
“O problema é que, a princípio,
Serra não é o candidato que a direita
gostaria de ter”. Ele é um democrata com
trânsito numa parte da esquerda. Também
é meio estatizante, adepto de uma política
tarifária protecionista e por aí vai.
Não é a mesma direita que tem representação
parlamentar hoje. Por quê? Porque Serra teve a
experiência da perseguição política,
da ditadura, do exílio. Companheiros dele foram
mortos, outros torturados. Isso até o aproxima
de Dilma.
A ex-ministra Dilma assumiu a Casa Civil num momento
difícil. “O governo e o país estavam
em crise e, por muito tempo, não se falou nela,
o que é um indício de grande eficácia”.
Num cargo exposto como esse, não ser notícia
é um grande feito. Isso prova que não
é ficção sua fama de boa administradora.
“Mas acho problemático ela não ter
a experiência de um mandato eletivo”. Michel
Temer, como eventual vice-presidente de Dilma Rousseff,
tenderia a comandar um PMDB fortalecido demais, a ponto
de comprometer o poder da presidente. O PMDB pode estabelecer
um vice-presidencialismo, com um papel de protagonista
que seria descabido.
Tendo acompanhado de perto a formação
dos novos partidos, nos anos 1980, Alencastro conhece
a dinâmica interna das principais legendas. No
PT, vê o risco de transformação
do lulismo no varguismo que o partido combateu em sua
origem. Já o PSDB pode ficar circunscrito a São
Paulo, enquanto a direita passa por um processo de radicalização
semelhante ao dos republicanos nos Estados Unidos.
A revista “The Economist” fez uma matéria
de capa sobre o Brasil, dizendo que o futuro chegou
para o país do futuro. Até a oposição
compartilha desse otimismo. Dentro e fora do país
há um consenso favorável sobre a economia
brasileira, sobretudo com a entrada da China no mercado
mundial, com uma forte demanda por matérias-primas.
A transição de Fernando Henrique para
Lula foi a primeira alternância que houve no Brasil
dentro da legalidade democrática. Era a última
hipoteca que pesava sobre a democracia brasileira. Uma
democracia não é só ter partido
político e eleição. É preciso
que a oposição também possa ganhar.
Os dois mandatos de Lula criaram algo novo. O cientista
político André Singer mostra [em artigo
para a revista "Novos Estudos"] que Lula foi
eleito no primeiro mandato pelos operários sindicalizados
e pela classe média. No segundo, perdeu uma parte
da classe média e ganhou entre trabalhadores
não organizados e subempregados, graças
aos programas sociais. Isso resultou num novo populismo.
Segundo Singer, esse eleitorado é conservador,
não quer mudanças, quer que o governo
tome conta dele. Acho essa interpretação
um pouco estática, porque pressupõe que
a ascensão social desse subproletariado não
incomoda ninguém, e que a ameaça de perder
o que ganhou não o levará a uma politização
ativa.
A classe média também pode gerar instabilidade,
ao sentir que perde privilégios. “É
o que alimenta a agressividade anti-Lula de certos jornais
e revistas, que retratam a perplexidade de uma camada
social insegura: os pobres estão satisfeitos
e os ricaços também, mas a velha classe
média não acha graça nenhuma”.
Ter doméstica com direito trabalhista, pobres
e remediados comprando carro e atrapalhando o trânsito,
não ter faculdade pública garantida para
os filhos matriculados em escola particular. Tudo isso
é resultado da mobilidade social, que provoca
incompreensão e ressentimento numa parte da classe
média. Daí o furor contra o ProUni, as
cotas na universidade, o Bolsa Família. Leio
a imprensa brasileira pela internet e às vezes
fico pasmo com os comentários dos leitores, a
agressividade e o preconceito social explícitos.
O discurso de parlamentares da direita, contra o sistema
de cotas raciais nas universidades públicas,
por exemplo, indica uma guinada à direita da
direita parecida com a dos republicanos nos Estados
Unidos. Lá, esse extremismo empolgou o partido
inteiro e pode desestabilizar o país. A falta
de perspectiva da oposição cria um vácuo
para o radicalismo.
Segundo Alencastro, a oposição está
“desarticulada e sem discurso político
coerente, e isso é ruim para o Brasil”.
A presidente da Associação Nacionais de
Jornais, Judith Brito, disse que a fraqueza da oposição
leva a imprensa a agir como partido. Para Alencastro,
o que é normal é a imprensa defender a
Constituição, reformas políticas,
ideias. “Esse é o papel da imprensa, o
que é diferente de querer substituir partidos
políticos. O papel do jornalista não é
redigir programas partidários”.
Ficha Limpa
Depois de muitas manobras protelatórias, e após
muitas reuniões buscando soluções,
o Projeto de Iniciativa Popular, em que tantos nos empenhamos
para coletar assinaturas de apoio, chegou ao momento
de decisão. O lançamento dessa campanha
foi aprovado por unanimidade na Assembléia dos
Bispos de 2008, e em 29 de setembro de 2010, no 10º
aniversário da promulgação da Lei
9840, contra a corrupção eleitoral, fizemos
a entrega, ao Congresso, das um milhão e trezentos
mil assinaturas obtidas.
Nos meses seguintes, o projeto Ficha Limpa ficou sob
a pilha de outros projetos que tramitavam, mas ressurgiu
no inicio do ano legislativo. Um Grupo de Trabalho parlamentar
foi encarregado de analisá-lo, assim com outros
dez sobre o mesmo tema, com um mês de prazo para
apresentar um substitutivo a todos eles. O substitutivo
estabeleceu, com a aceitação do Movimento
de Combate à Corrupção Eleitoral,
que as condenações que levariam à
inelegibilidade teriam que ser decididas por um órgão
colegiado (que seria uma segunda instância em
alguns casos e uma primeira em outros). Ele foi levado
ao plenário, mas foram apresentadas muitas emendas.
Ele foi enviado então à Comissão
de Constituição e Justiça, com
menos de um mês de prazo para ser analisado.
Na manhã do dia 27 de abril, o parecer do relator
dessa Comissão foi apresentado. Foram feitos
vários pedidos de vista, que atrasariam a tramitação
em mais uma semana. Mas os lideres de todos os partidos
cumpriram o compromisso que tinham firmado quando da
discussão em plenário, e apresentaram
um requerimento de urgência urgentíssima,
com o que o projeto volta ao plenário da Câmara
para lá ser discutido e votado. E no dia 04 de
maio, terça-feira, o requerimento será
apreciado e o projeto entra em votação.
Há o risco de esvaziamento do plenário,
visto que os contrários não desejarão
ter publicado o seu voto, uma vez que o voto será
aberto e nominal.
Eventos em todo o Brasil estão acontecendo para
aumentar a pressão sobre cada deputado. O voto
será nominal e aberto. Estamos à beira
de uma vitória histórica do povo brasileiro,
pela dignificação de nosso Congresso Nacional.
Mãos a obra, com todo o entusiasmo.
A aprovação do projeto de lei Ficha Limpa
em tempo hábil terá um grande impacto
nas eleições, visto que retira da disputa
candidatos que tenham sido condenados por crimes em
instâncias colegiadas (tribunais de justiça,
por exemplo), ou que tenham renunciado após formalizada
a representação (denúncia formal)
em Comissão de Ética das casas legislativas.
O MCCE avalia que após a aprovação
no Congresso será necessária grande mobilização
para sua efetiva aplicação, além,
é claro, de resistir a possíveis ações
no STF para postergar a aplicação para
as eleições de 2010.
Direitos Humanos
Há uma comissão de Bispos, apoiada por
assessores, que irá apresentar uma reflexão
mais aprofundada sobre o tema. A idéia é
refletir sobre o papel da Igreja na promoção
dos Direitos Humanos e a partir desse lugar na história,
procurar agir na perspectiva de fortalecer os Direitos
Humanos, dando seu testemunho e exercitando sua missão
profética.
II Assembléia Popular Nacional
Será realizada, entre os dias 25 e 28 de maio
de 2010, em Brasília, a II Assembléia
Popular Nacional. A I Assembléia Popular foi
realizada em outubro de 2010, também em Brasília,
e reuniu mais de 10 mil participantes, que representavam
centenas de entidades, entre estas pastorais sociais,
movimentos populares rurais e urbanos e uma ampla gama
de grupos de base dedicados às lutas sociais.
O principal fruto desta I Assembléia foi a elaboração
coletiva do Projeto Popular para o Brasil, que sistematizava
as propostas do “Brasil que Queremos”. A
partir das formulações das próprias
pastorais sociais e movimentos, o Projeto Popular para
o Brasil trazia afirmações importantes
com relação aos valores e à ética
na vida política, à igualdade de gênero,
à diversidade sócio-cultural e, principalmente,
trouxe a noção de “bioma”
como elemento organizador para se pensar o país,
a população, o meio ambiente e a formulação
das políticas públicas.
A Assembléia Popular tem suas raízes nas
Semanas Sociais Brasileiras, realizadas desde 1991 pela
CNBB, e que constituíram um importante espaço
para se debater os desafios centrais para o Brasil,
do ponto de vista do trabalho, do protagonismo social,
das dívidas sociais e das alternativas em termos
de desenvolvimento sustentável e com igualdade
social. Parte de suas raízes também estão
nas lutas sociais dos anos 90, no Grito dos Excluídos,
nos Plebiscitos sobre a Dívida Externa e sobre
a Alca, em redes sociais como o Jubileu Sul Brasil,
nas inúmeras lutas locais, dos povos indígenas,
quilombolas, ribeirinhos, comunidades extrativistas
etc
A II Assembléia Popular pretende realizar uma
atualização do Projeto Popular aprovado
em 2005. As contribuições das pastorais
sociais e movimentos populares já foram enviadas
para uma Equipe de Sistematização, que
redigiu um Instrumento de Trabalho o qual será
a base para os debates e reflexões dos participantes.
Diferente da primeira, esta II Assembléia não
terá caráter massivo, mas de representação
dos estados, pastorais sociais e movimentos populares.
Durante o processo de preparação da II
Assembléia Popular surgiram divergências
e tensionamentos, próprios de um processo que
reúne uma diversidade tão grande de grupos
e movimentos, mas um sério esforço vem
sendo feito pelas várias lideranças, para
que estas diferenças resultem em amadurecimento
das concepções, métodos e práticas
ali presentes e num aperfeiçoamento da democracia
interna.
Esta II Assembléia Popular configura, portanto,
um amplo processo, de abrangência nacional, de
continuidade na construção coletiva de
um Projeto Popular para o Brasil. Frente à ausência
ou extrema pobreza de propostas políticas sintonizadas
com os setores populares, por parte dos partidos políticos
institucionalizados, a iniciativa da Assembléia
Popular ganha importância estratégica e
poderá, inclusive, contribuir positivamente com
o debate eleitoral a ser realizado neste ano, superando
o eleitoralismo e qualificando a discussão de
projetos para o país.
Igualmente importante, a II Assembléia Popular
deverá resgatar os valores da pedagogia democrática
no trabalho junto aos setores populares rurais e urbanos;
fortalecer o protagonismo popular na formulação
das políticas públicas e elaborar propostas
de controle social do Estado, com base na ampla e diversa
participação da população
organizada. Estará na pauta também a realização,
em setembro próximo, do Plebiscito Popular sobre
o limite da propriedade da terra, previsto como gesto
concreto da Campanha da Fraternidade Ecumênica
de 2010.
Muitos agentes das pastorais sociais e militantes de
movimentos populares já afirmam que, neste ano
eleitoral, “meu candidato será o Projeto
Popular para o Brasil”.
Hidrelétrica de Belo Monte
O projeto governamental da Usina Hidrelétrica
de Belo Monte, nos últimos dias, virou símbolo
de polêmica em diversas dimensões: ambiental,
indígena, ribeirinha, social, econômica,
dos processos de licenciamento, dos métodos de
audiência pública, do papel da mídia,
de modelo energético, de concepção
de desenvolvimento, de financiamento estatal, de futuro
da Amazônia brasileira e, finalmente, das relações
do Poder Judiciário com o Poder Executivo.
As primeiras referências à construção
de hidrelétricas naquela região do rio
Xingu datam dos anos 70, quando os militares traçaram
planos para a construção de inúmeras
barragens em toda a região amazônica. O
desenvolvimento de tais projetos, no entanto, encontrou
forte resistência nos anos e décadas seguintes,
pois foi concomitante ao crescimento das lutas indígenas
e das populações tradicionais, na defesa
de seus territórios e de seus direitos históricos.
O projeto original tinha por nome “Kararaô”
e pretendia alagar cerca de 1.500 quilômetros
quadrados de florestas e áreas indígenas.
Circulou por todo o mundo, a foto do representante da
Eletrobrás com um facão no pescoço,
empunhado pela indígena Kaiapó, Tuíra,
mostrando sua indignação frente à
ameaça de suas terras serem alagadas pelos seis
barramentos projetados para o rio Xingu. O movimento
ambientalista, que cresceu no país após
o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes,
em 1989, aliado ao movimento indígena, conseguiu
com que o projeto fosse sustado durante mais de uma
década. Experiências extremamente negativas,
como da Usina Hidrelétrica de Balbina, no Amazonas,
inviabilizaram, moralmente inclusive, a continuidade
deste e de outros projetos do setor elétrico
brasileiro.
A chamada “década perdida” em termos
de crescimento econômico, associada às
concepções de “Estado mínimo”,
dos anos 90, onde o planejamento estatal foi abandonado,
deixou dormindo nas gavetas da burocracia governamental,
diversos projetos de investimento em infra-estrutura,
inclusive hidrelétricas. Com a retomada dos projetos
de desenvolvimento, ao longo dos dois mandatos do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, vários projetos
voltaram para as pranchetas dos técnicos governamentais,
entre eles a antiga hidrelétrica “Kararaô”,
que foi reduzida e rebatizada de “Belo Monte”.
Frente às fortes críticas de ambientalistas
e dos povos indígenas, o projeto foi redesenhado,
reduzido em suas dimensões para cerca de 500
quilômetros quadrados de área alagada e
reduzido de seis para um barramento, na chamada Volta
Grande do rio Xingu. Mesmo assim, trata-se de um grande
projeto, avaliado como a terceira hidrelétrica
do mundo, inferior apenas à hidrelétrica
de Três Gargantas, na China, e à hidrelétrica
de Itaipu, e continua de grande impacto sócio-ambiental.
O governo realizou audiências públicas
e o processo de licenciamento, viabilizando a formação
dos consórcios e o leilão desta hidrelétrica
no dia 20 de abril último. Nada disso, no entanto,
vem sendo realizado tranquilamente, pelo contrário.
Questionamentos vieram de inúmeras áreas,
dos povos indígenas e ribeirinhos, do Ministério
Público, dos ambientalistas, de uma plataforma
de cientistas que estudaram o projeto etc. Destaca-se,
entre os críticos de Belo Monte, o Bispo da Prelazia
do Xingu, Dom Erwin Krautler, que colocou pessoalmente
ao presidente Lula sua inconformidade com o projeto
e suas razões, tendo aberto espaço, nesta
mesma reunião, para a fala de representantes
dos povos indígenas, ribeirinhos, do Ministério
Público e dos cientistas.
Apesar da “licença prévia”
ter sido dada, e de ter viabilizado o leilão,
é necessária a “licença de
construção”, para que Belo Monte
venha a ser concretizada. Daqui até esta possibilidade,
a polêmica só tende a crescer, com os argumentos
e ações judiciais de parte a parte sendo
colocados.
Por um lado, o governo sustenta que os impactos do projeto
inicial, Kararaô, foram reduzidos em um terço
e que medidas de redução e mitigação
de impactos foram e serão tomadas, incluindo
um projeto de desenvolvimento regional e um conjunto
de condicionantes, no valor de 800 milhões de
reais em investimentos públicos, protegendo o
meio ambiente e as comunidades atingidas e criando políticas
públicas em saneamento básico, saúde
e educação para a população.
Sustenta, também, que o país necessita
de “uma usina de Itaipu a cada três anos”,
ou cinco mil megawatts por ano, “para dar continuidade
ao projeto de crescimento econômico e inclusão
social dos últimos anos”.
Por outro lado, os críticos do projeto questionam
a ausência de escuta das comunidades que seriam
atingidas, indígenas e ribeirinhas; a exclusão
do Ministério Público do processo; a falta
de informações precisas sobre os impactos
sócio-ambientais de Belo Monte; sobre os riscos
para a vida das comunidades e para o meio-ambiente;
sobre a navegabilidade do rio Xingu e o futuro das cidades
da região; sobre as políticas públicas
para dar conta da chegada de mais de 100 mil migrantes
à região; sobre a possibilidade de no
futuro os demais barramentos serem retomados, atingindo
fortemente todos os povos indígenas da região
do Xingu.
Os críticos de Belo Monte, incluindo o Bispo
do Xingu Dom Erwin Krautler, questionam, principalmente,
a própria concepção de crescimento
econômico assumida pelo governo Lula, da qual
Belo Monte faz parte.
4. Notícias do Congresso
Uma visão global dos trabalhos do Congresso:
Sete categorias de Propostas de Lei
Existe desde algum tempo, em Brasília, um site
chamado Congresso em Foco que acompanha os principais
aspectos da vida do Parlamento: através de análises
de projetos, levantamento das questões que têm
mais implicações na vida da população.
Ultimamente, analisou as matérias que tramitam
nos plenários da Câmara e do Senado.
Na pesquisa, foram considerados: os projetos de lei
e de lei complementar, as propostas de Emenda à
Constituição (PECs), as medidas provisórias,
e os projetos de decreto legislativo e de resolução.
O levantamento considerou somente as matérias
em análise nos plenários da Câmara
e do Senado até o dia 29 de março de 2010
(já debatidas nas comissões). Foram ignoradas
as matérias ainda em tramitação
nos colegiados temáticos das duas Casas.
Vejamos as matérias estudadas classificadas em
sete categorias:
Assunto Câmara* Senado Total %
Outros 350 151 501 37,9%
Economia, Trabalho e Meio Ambiente 215 56 271 20,5%
Segurança Pública e Justiça 145
29 174 13,2%
Sociedade 118 29 147 11,1%
Eleições e Política 87 42 129 9,8%
Saúde e Ação Social 51 22 73 5,5%
Educação 18 8 26 2,0%
Totais 984* 337 1.321 100,0%
Fonte: Congresso em Foco, com base em dados da Secretaria
Geral da Mesa
das duas Casas coletados em 29 de março de 2010 |
Na
categoria “sociedade” entram temáticas
como: casamento; trânsito; regulamentação
de profissões; deficientes físicos e
idosos; cultura e imprensa; igreja e associações;
esporte; discriminação social; documentação
e cartórios; sem-terra e sem-teto...
Os critérios adotados procuraram ser os mais
simples possíveis, dentro da ótica de
um Estado servidor do cidadão, nas necessidades
básicas da população.
A prioridade dos parlamentares brasileiros, revelada
na pesquisa, é legislar sobre o funcionamento
do Estado, obras públicas, acordos internacionais,
criar datas comemorativas, tratar da relação
entre a União e estados e municípios.
Também se interessam por economia, trabalho,
impostos, direito do consumidor e até meio
ambiente. E não se esquecem de criminalizar
delitos comuns e do colarinho branco. 96% dessas propostas
na fila são de autoria de deputados e senadores
e apenas o restante de autoria do Executivo. Em contrapartida,
80% daquilo que o Congresso aprova é de iniciativa
do governo federal.
Chama especial atenção: apesar do clichê
dos discursos políticos, o atendimento à
educação e à saúde parece
longe de serem prioridades de deputados e senadores;
como vimos no quadro supracitado estão nos
últimos lugares os projetos de saúde,
assistência social e educação.
Os 73 projetos que tratam de vacinação,
alimentação e financiamento da seguridade
social representam 6% do universo do levantamento
do Congresso em Foco. Educação e pesquisas
científicas, 26 ou 2% do total. A licença-maternidade
obrigatória de seis meses para as gestantes
é o objetivo de duas PECs, uma na Câmara
e outra no Senado, ambas de 2007. No ano passado,
os parlamentares aprovaram a licença de seis
meses facultativa às empresas, com direito
a isenções fiscais se elas a adotarem.
Em 2003, o senador Demóstenes Torres apresentou
ao Senado um projeto para tornar a educação
integral obrigatória na rede pública
de ensino fundamental. Estudantes do 1º ao 9º
ano ficariam pela manhã e à tarde na
escola. A matéria se mantém no plenário
da Casa desde o ano passado.
Feriados religiosos
O Projeto de Lei 774/03, do deputado Marcelo Castro
(PMDB-PI), transfere os feriados que caírem
no meio da semana para as sextas-feiras. As exceções
serão os dias 1º de janeiro, 7 de setembro
e 25 de dezembro. O projeto, aprovado na Câmara,
em maio/2009, aguarda votação no Senado.
Cuidados com pacientes terminais
Propostas em tramitação na Câmara
permitem ao paciente terminal optar pelo fim dos procedimentos
médicos que o mantém vivo artificialmente.
"Defendemos a qualidade e não a quantidade
de vida", disseram os participantes do evento
promovido pela Legislação Participativa.
Representantes de entidades médicas e religiosas
voltaram a defender na Câmara a regulamentação
do atendimento a pacientes terminais no Brasil e,
conseqüentemente, da ortotanásia. O termo
é utilizado pelos médicos para definir
a morte natural, digna e sem sofrimento, sem a interferência
da ciência. Dessa forma, evita-se o prolongamento
artificial da vida por meio de medicamentos e aparelhos.
A Comissão de Seguridade Social analisa três
projetos sobre o assunto.
Mantido até agora os 7% para aposentados
O Plenário adiou a votação da
Medida Provisória 475/09 – sobre os aposentados
que ganham mais do que o salário mínimo
-, já em tramitação para ser
votada. O líder do governo, relator da matéria,
apresentou seu parecer à MP com reajuste de
7% para os benefícios da Previdência
Social acima de um salário mínimo. O
reajuste original era de 6,14%. Não há
unanimidade entre os partidos da base aliada ao Executivo,
tanto na Câmara quanto no Senado. O relator
garantiu que, até 4 de maio, o governo deverá
levar os ministros da Previdência Social e da
área econômica à Câmara
e ao Senado para discutir os números envolvidos
nos aumentos propostos. Há propostas bem diversas
dos partidos de oposição.
Código Florestal
O conflito entre o setor agrícola e os ambientalistas
encontra-se em ponto de ebulição desde
2007 quando o governo federal instituiu o Decreto
nº 6.321/2007, que prevê penas ao descumprimento
de determinações do Código Florestal.
O código em vigor traz uma longa lista de exigências
que não têm sido observadas. Com o advento
do Decreto citado, a inobservância daquelas
exigências passou a implicar pesadas penas,
que vão de multa de R$ 50,00 a R$ 500,00 por
dia e, até mesmo, a interdição
da propriedade. O embate chegou ao Congresso Nacional,
onde estão ocorrendo debates em uma Comissão
Especial criada para apreciar os muitos projetos de
reforma do Código Florestal em tramitação
na Casa. Nessa discussão sobressaem dois pontos
especialmente polêmicos. O primeiro é
a questão da competência para legislar
sobre questões ambientais. Ambientalistas querem
manter a competência da União, com os
Estados legislando subsidiariamente, enquanto o setor
rural prefere delegar aos Estados essa competência.
O segundo ponto é o da reserva legal. O setor
rural quer amenizar as exigências atuais e os
ambientalistas resistem à tentativa de mudança
da legislação em vigor.
Pré-sal
O presidente Lula reuniu-se no dia 29 de abril com
cerca de 30 senadores da base do governo (PT, PMDB,
PTB, PSB, PDT e PR) e fez um apelo para aprovação,
antes do fim de maio, de três dos quatro projetos
que tratam do pré-sal: o que cria a empresa
Petro-Sal, o que trata da capitalização
da Petrobras e o que cria o Fundo Social. Lula pediu
também que o projeto que institui o modelo
de partilha seja dividido, a fim de que a parte referente
divisão dos royalties do petróleo fique
para o próximo ano. A previsão dos líderes
da base do governo é de que nos dias 18 ou
19 de maio, sejam votados os projetos da Petro-Sal
e da capitalização da Petrobras. Na
semana seguinte, de 24 a 28 de maio, seriam votados
então o Fundo Social e o projeto que trata
da mudança de regime de concessão para
o de partilha, sem a parte dos royalties.
PEC do divórcio
Já foi totalmente aprovada na Câmara
e em primeiro turno pelo Senado a Proposta de Emenda
à Constituição nº 28/2009,
que altera a legislação que rege o divórcio.
A referida PEC altera o parágrafo 6º do
artigo 226 da Constituição Federal,
segundo o qual o divórcio será concedido
após separação judicial por mais
de um ano ou comprovada separação de
fato por mais de dois anos. A PEC que está
prestes a ser aprovada define que o casamento será
dissolvido pelo divórcio, sem exigência
dos prazos.
Outros temas em tramitação
Há muitos projetos em tramitação
com debates intermináveis para um acordo:
- O Combate ao trabalho escravo, em busca de aprovação
desde muito pela PEC 438/0;
- A Reforma agrária e o limite da propriedade
da terra, incentivo à agricultura familiar
e camponesa nos contornos de cada bioma brasileiro;
- A diminuição da jornada de trabalho
sem redução de salários, ampliação
dos fundos solidários e a construção
do marco da economia solidária, - a guerra
dos sindicatos;
- A implementação de uma política
de emprego para a juventude, transporte e moradia
digna, acesso à saúde e educação;
- Projetos com temática de bioética
como por exemplo o projeto da homofobia há
tempos em discussão no Senado...
Contribuíram para esta análise:
Pe. Antonio Abreu SJ, Pe. Bernard Lestiene SJ, Pe.
Thierry Linard SJ (Jesuítas do Ibrades),
Daniel Seidel, Gilberto Sousa, Pe. José Ernanne
Pinheiro, Pe. Nelito Dornelas e Paulo Maldos
Profº Msc Daniel Seidel
Universidade Católica de Brasília e
CBJP/CNBB
*Não é documento oficial da CNBB
|
Conjuntura
Eclesial*
Um olhar específico sobre a Igreja hoje
|
1. Uma proposta entre outras
A reflexão que agora vamos partilhar tem um caráter
predominantemente pastoral. Numa Assembléia que
vai refletir sobre a Palavra de Deus e o rumo das comunidades
eclesiais de base, penso ser mais útil recordar
alguns aspectos que, embora todos conheçam, na
prática, ainda não se resolveram como
gostaríamos, apesar de tantas vezes abordados.
Não trago, portanto, novidades nem soluções
definitivas. Trago alguns destaques para a ação
evangelizadora hoje. Assumo e sistematizo algumas das
idéias que vêm norteando as conversas pastorais
dos últimos anos. Baseio-me, em maior escala,
no Documento de Aparecida, repetindo aspectos constantes
das atuais Diretrizes. Todos os temas aqui abordados
se encontram nos textos referidos. A questão
maior é sua efetiva passagem para o cotidiano
evangelizador. São as urgências pastorais
que o atual momento nos impõe. Podemos e devemos
nos preocupar com todos os aspectos. Devemos, no entanto,
elencar algumas urgências e unir forças
para sua efetiva concretização.
Neste sentido, recordo que o ponto de partida para qualquer
compreensão do momento diz respeito à
não poucas vezes mencionada mudança de
época pela qual nosso mundo globalizado está
passando. A Igreja do Brasil, em consonância com
a Conferência de Aparecida, já assumiu
esta mudança de época em suas Diretrizes
(DGAE 5-6, 13ss). Daí, a consciência missionária,
que vem crescendo e mesmo assumindo o primeiro lugar
de nossos planejamentos pastorais, como visto num breve
estudo iniciado há pouco com planos de pastoral
da maioria das dioceses de nosso país.
2.
Mudança de época e não época
nova
Importa ressaltar que não estamos ainda numa
nova época. O atual momento não é
um processo terminado. É, antes, uma realidade
em andamento. Por isso, a mentalidade com a qual lidamos
não repousa sobre pressupostos fixos, ainda que
distintos de épocas anteriores. Ela repousa sobre
uma perspectiva em mutação, em contínua
transformação, em oscilação.
Consequentemente, o perfil evangelizador necessita assumir
que está dialogando com uma realidade em transformação.
Isto significa centralizar-se no que é essencial,
acelerar atitudes, olhar o horizonte com amplitude maior
e, acima de tudo, não temer experimentos novos.
Deve reconhecer que, mais do que em épocas anteriores,
as decisões pastorais tomadas hoje precisam ser
sólidas o suficiente para colocar a Igreja em
diálogo com esta mentalidade emergente e mutante.
Precisam, contudo, ser igualmente flexíveis a
ponto de, com rapidez, serem continuamente adaptadas
ao novo que vai surgindo. É fazer, rever e refazer
continuamente. As mudanças de época, com
sua exigência de diálogo, não nos
dão muito tempo para respirar e contemplar.
3.
A responsabilidade da Igreja
Esta urgência, esta aceleração nos
ritmos pastorais tem sua razão de ser. Acompanha
a contínua mutação da realidade
e reconhece que, neste acompanhar, precisa responder
ao desafio de contribuir para a nova época que
está para surgir. A nova época não
dependerá exclusivamente da Igreja. A Igreja
não determinará totalmente este novo ethos,
mas ela tem a missão de contribuir para que o
novo ethos possua fortes marcas do Evangelho. Num mundo
plural, onde, mais do que em épocas anteriores,
sentimos a força do diferente e a necessidade
de dialogar o tempo todo, a Igreja é uma voz
em meio a tantas e uma voz em déficit sociocultural.
Os processos, já tão estudados, da crise
das instituições produtoras de sentido
e da transmissão destes mesmos valores via tradição,
têm relativizado os usuais caminhos de presença
social da Igreja a partir de seu caráter institucional
e tradicional.
4.
O idioma a ser usado
Sabemos que esta mudança de época vem
marcada por algumas passagens. No mínimo cinco
passagens devem ser consideradas, se desejamos estabelecer
um idioma comum com a mentalidade que está vivendo
esta mudança de época e efetivamente influenciar
no surgimento de um novo ethos. As passagens são:
1) Da primazia do uno para a supervalorização
do múltiplo.
2) Do estático para o movimento.
3) Da homogeneidade para a diferença.
4) Da instituição e da tradição
para o indivíduo.
5) Do predomínio da transcendência para
a urgência da imanência.
Estas passagens revelam estarmos diante de uma concepção
de ser, no sentido ontológico do termo, distinta
de épocas anteriores e que, por isso, nos pedem
estabelecer uma plataforma mínima de diálogo
com o múltiplo, o movimento, diferença,
a individualização, a imanência.
Ou assumimos, por exemplo, a liquefação
(Bauman), a individualização das crenças
(Hervieu-Léger), o tribalismo e as novas formas
sazonais de socialização (Mafezzolli),
ou não seremos capazes de dialogar com a emergente
concepção de ser. E, quando falamos em
concepção de ser, falamos dos valores
mais profundos, lá onde exatamente a evangelização
deve chegar (EN 19).
5.
Os novos idiomas e nossa identidade
O desafio consiste em discernir entre aquilo que é
próprio de nossa identidade e aquilo que é
marca cultural de épocas anteriores. A relação
entre Fé e Cultura(s) não está
superada. Ao contrário, ela nos interpela continuamente,
pois a Fé não paira solta no ar. Ela se
concretiza em pessoas e povos e o faz exatamente através
dos dados culturais, das imagens, das manifestações
e formulações próprias de cada
cultura. Esta é uma conseqüência do
princípio da encarnação. A Fé
só pode ser significativa se for vivenciada no
horizonte da cultura.
Recordo estes aspectos para chamar a atenção
para aquela que considero a pergunta evangelizadora
central de nossos dias: e possível viver a experiência
cristã em contexto multiforme, individualizante,
continuamente mutante, valorizador das diferenças
e imanentizador?
6.
Jesus Cristo, razão de nossa esperança
e sentido para a existência de toda a criação.
A resposta nós a encontramos no princípio
evangelizador relembrado pelo Papa João Paulo
II (NMI 29) e assumido por Aparecida: recomeçar
a partir de Jesus Cristo (DA 12 e 41). A dificuldade
começa no momento em que damos conteúdo
a este Jesus Cristo, no momento em que destacamos, de
tudo que Jesus Cristo é, um ou outro aspecto,
no momento em que usamos imagens e formulamos conteúdos.
Sabemos que existe uma tensão constante entre
Jesus Cristo e as compreensões que temos dele,
isto é, as cristologias. Estas não esgotam
o mistério de Jesus Cristo, mas este mistério
não se transmite sem as formulações
histórico-culturais, ou seja, sem as cristologias.
Neste sentido, uma das tarefas do atual momento evangelizador
consiste em identificar de que Jesus Cristo nós
estamos falando. Todas as culturas e, portanto, também
a contemporânea, são capazes de processar
e reciclar tudo, inclusive a pessoa e a mensagem de
Jesus Cristo. Não é sem sentido que o
nome de Jesus Cristo apresenta, nesta mudança
de época, grande variedade de significados e
conseqüentes implicações existenciais.
O tema Jesus nós o encontramos nos mais diversos
contextos, exigindo, da parte da ação
evangelizadora uma espécie de ecumenismo cristológico,
no qual as diversas formas de compreender, viver e transmitir
Jesus Cristo são postas em diálogo.
Assim, penso que a questão mais urgente não
seja tanto Jesus em diálogo com outras religiões
e propostas de sentido. Esta questão existe.
É real. Não podemos negá-la. Penso,
contudo, que, esta seja questão segunda. A questão
primeira consiste em identificar em dar conteúdo
ao que Jesus Cristo significa, nestes tempos de mobilidade,
mutação e individualização.
Dito de outro modo: o que, no mistério da pessoa
e da mensagem de Jesus Cristo, é, ao mesmo tempo,
pertinente à Tradição e relevante
para a cultura de hoje?
Como resposta, penso que o atual momento da história
nos convida a elevar aos primeiros lugares da compreensão
sobre Jesus Cristo aquele aspecto indicado pelo Papa
Bento XVI em seu Discurso Inaugural da Conferência
de Aparecida e, mais tarde, incorporado ao texto das
Conclusões. Este é um tempo para que se
destaque a uma cristologia kenótica, construída
a partir da contemplação do Cristo que,
“sendo rico se fez pobre para a todos enriquecer”
(2 Cr 8,9; Disc.Inaug. 3, DA 31, 392).
Esta concepção de Jesus Cristo, que, saindo
de si, vai ao encontro e convida os discípulos
e discípulas a fazerem o mesmo, é, ao
mesmo tempo, relevante para o diálogo com a mentalidade
atual e fiel à Tradição. Há
de fato, no cristianismo, uma dimensão de abertura
profunda e contínua ao futuro, ao diferente,
ao movimento, à multiplicidade, à esperança,
ao porvir, à superação do hoje,
em especial do hoje tão sofrido, às vezes.
O cristianismo é escatológico por natureza
e escatologia significa também abertura, busca
e construção do futuro.
Assim, o Jesus Cristo da kénosis remete à
pastoral da kénosis, ou pastoral da alteridade.
Trata-se de uma pastoral marcada, acima de tudo, pelo
mergulho em busca do outro, pela imersão nesta
realidade em contínuo e acelerado processo de
mutação. Alguns dizem que se trata de
correr atrás do prejuízo. Não sei
dizer se esta avaliação mais quantitativa,
decorrente, por exemplo, do contato com dados censitários
e outras pesquisas que acenam para o declínio
numérico dos católicos no Brasil, deve
ser nosso maior motivador. É claro que a perda
sempre incomoda. Afinal, entre qualidade e quantidade
existe certa correlação. As primeiras
comunidades mostram, entre os efeitos da vida de irmãos,
o aumento no número dos fiéis (At 5,14).
Penso, contudo, que os motivos maiores não sejam
os da concorrência pastoral. Eles estão
ligados a algo que está no cerne da identidade
cristã e que outras épocas não
permitiram maior destaque.
Nosso tempo é tão cheio de perplexidades.
O outro e o diferente sempre nos assustam. Este é
um fato humano. O outro assusta, porém, bem mais
quando ele é plural, diversificado, mutante e
impossível de enquadramento satisfatório.
Em face de tudo isso, a força interpeladora do
Evangelho estará na capacidade de vivermos e
testemunharmos que o outro não é nem ameaça
nem objeto para fruição. O outro é
fascínio, que atrai, convida e pro-voca. Sem
esta abertura kenótica à alteridade, não
seremos capazes de fielmente dar as razões de
nossa esperança a um mundo que, mesmo quase uma
década depois do 11 de setembro, ainda se apavora
com a possibilidade do inimigo estar dentro de casa;
ou, então, um mundo que se torna descrente em
meio a tanta desonestidade, tanta corrupção,
tanto desrespeito à vida. Aliás, nem precisamos
recorrer ao 11 de setembro para compreender a perplexidade
trazida pelo outro que invade nossa existência.
O que devemos dizer àquela senhora que nos procura
afirmando que, na própria família, no
local de trabalho e na vizinhança, ela é
a única seguidora de Jesus Cristo, pois as pessoas
com quem convive ou, na prática, são sem
religião ou migraram para os empórios
neoliberais de curas e prodígios?
7.
Uma identidade missionária. Uma missão
atualizada.
A missão é sempre a resposta da Igreja.
É uma resposta que faz parte de nossa identidade
mais profunda. Ela vale para os tempos de bonança
e para os tempos de tempestade, para os períodos
de maior plausibilidade sociocultural e para os períodos
de perseguição. Nesta atual mudança
de época, a passagem do institucional para o
individual é, a meu ver uma das que mais determinam
o perfil missionário. Há séculos,
estamos acostumados a apresentar as razões de
nossa esperança a partir dos critérios
da tradição, da instituição
e da verdade objetiva. A missão se caracteriza
pela inserção numa comunidade/instituição
socioculturalmente reconhecida e em vista do acolhimento
de uma verdade objetiva. Estes argumentos não
perderam seu valor teológico. Eles experimentam
o enfraquecimento sociocultural. Já não
possuem fôlego para fazer chegar a Boa Nova ao
coração de pessoas e povos. Na atual mudança
de época, vale bem mais o que é individualizado.
Lembremo-nos das bênçãos individualizadas
pedidas ao final das celebrações eucarísticas.
Elas são exemplos agudos do que os estudiosos
do assunto chamam de individualização
das crenças, palpabilidade intra-histórica
e sensitividade da presença do divino.
8.
Evangelização individualizada?
Consequentemente, a missão, sem deixar de apontar
para a dimensão comunitário-social da
Fé, deve estar atenta para o caráter individualizante
que permeia muitas das compreensões atuais da
vida. Deverá, por certo, questionar a excessiva
individualização, na medida em que ela
se feche para a alteridade. No entanto, deverá
investir com maior rapidez num perfil de ação
evangelizadora capaz de acolher, ouvir, aconselhar,
ajudar na recentralização do eu, trabalhar
as crises e neuroses decorrentes da perda de raízes.
Sem esta pastoral de cunho personalizador, experimentaremos
dificuldade em dialogar com a mentalidade emergente.
Como agir pastoralmente diante, por exemplo, de uma
mulher já idosa, merecedora de um pouco de paz,
envolta, porém, com os bisnetos arrebanhados
pelo crime organizado, preocupada com o posto de saúde
que não funciona, com o sustento da família
unicamente através do salário mínimo
que ela recebe da Previdência Social e com a filha
adicta que até a espanca no auge das crises?
Como não pensar num acolhimento personalizado
a um jovem, cujos pais, cooptados pela mentalidade do
lucro a todo custo, se esqueceram de que paternidade
é presença e este jovem, tendo buscado
afeto nas drogas, vem pedir a ajuda de Jesus?
Os empórios de curas e milagres fazem sucesso
porque respondem a este perfil mais personalizador,
individualizante. Ali, Jesus atende ao meu pedido, eu
dou meu testemunho. Não quero dizer, por certo,
que nossa pastoral deva também se tornar um desses
armazéns de prodígios. Quero dizer que
precisaremos, com urgência, pensar bastante na
questão, por exemplo, da escuta, dos grupos de
recentralização do eu dilacerado pelas
dores de nosso tempo, pela solidão, pela crise
de identidade. Nossa ação evangelizadora
é, portanto, chamada a assumir um perfil mais
personalizador, capilarizador até o nível
do indivíduo.
9.
Um risco para o qual atentar
O problema desta atual passagem eu o vejo no grande
peso que se atribui à responsabilidade individual
dos agentes evangelizadores. Na medida em que o caráter
institucional não possui tanta força para
proteger e garantir a ação missionária,
o peso está sobre cada indivíduo. Assim,
mais do que em outras épocas, o que cada agente
evangelizador vier a fazer afetará intensamente
não apenas a ele, mas também à
Igreja e, com ela, Jesus Cristo e o anúncio do
Reino de Deus.
A primeira conseqüência é clara. Em
tempos de hipervalorização do indivíduo,
emerge concomitantemente a hipervalorização
do testemunho pessoal. Se, em todos os tempos, o testemunho
sempre marcou a missão, hoje, num tempo em que
o respaldo institucional é débil, a postura
individual é determinante.
Em segundo lugar, emerge aos primeiros lugares de nossa
preocupação pastoral o fato de que todos
os batizados assumam claramente a consciência
evangelizadora, seja no testemunho pessoal em todos
os momentos e lugares, seja no engajamento pelo anúncio
e a construção do Reino de Deus. A passividade
no anúncio do Evangelho não é neutra.
É anti-anúncio. Daí a urgência
em trabalhar para que cada batizado(a) seja um(a) efetivo(a)
agente evangelizador(a).
A terceira conseqüência diz respeito às
falhas pessoais. Nos contextos em que o peso maior é
colocado na instituição, quando um indivíduo
falha, a tendência é a de se reconhecer
a santidade da instituição como garantidora
da proposta. Quando o peso maior, ao contrário,
é colocado no indivíduo, a tendência
é a de generalizar para toda a instituição
o que um indivíduo ou mesmo um conjunto de indivíduos
venham a fazer. Quando o destaque é dado à
instituição, erros individuais são
socioculturalmente protegidos pelo guarda-chuva institucional.
Quando o destaque é socioculturalmente dado ao
indivíduo, erros individuais vão parar
na mídia, no telejornal das vinte horas e, mais
recentemente, nos tribunais civis, em busca de justiça
misturada com vingança e indenização.
10.
Testemunhar a força da comunidade
Na medida em que a atual sensibilidade religiosa vem
migrando da adesão comunitário-institucional
para o imediato das soluções intra-históricas
dos problemas, Jesus é buscado como um grande
taumaturgo, apto a suprir o que os mecanismos usuais
para a solução dos problemas não
são capazes de fazer. Esta é a noção
de Jesus Cristo mais aceita pela atual mentalidade.
Não a única; porém, a mais aceita.
A peculiaridade desta leitura de Jesus Cristo está
no fato que ela participa do mesmo processo que rompe
o vínculo entre indivíduo a instituição-comunidade.
Esta ruptura atinge a relação entre Jesus
Cristo, dado individual, e a Igreja (dado institucional).
O vínculo se rompe por duas razões principais.
De um lado, é o processo relativizador das instituições
produtoras de sentido. De outro, é a incapacidade
das concretizações eclesiais costumeiras
manifestarem e permitirem a efetiva experiência
comunitária. Mantendo-me nas Conclusões
de Aparecida e em tudo que atuais Diretrizes indicam,
recordo que o recomeçar a partir de Jesus Cristo
implica necessariamente uma Igreja kenótica,
próxima da vida das pessoas, tanto no nível
da individualidade quanto no nível das pequenas
comunidades em rede (DA 99e, 170ss, 309).
Pode parecer estranho que, após insistir tanto
na exacerbação da individualidade como
uma das características do atual período,
eu venha agora a indicar que o aspecto comunitário
e, mais ainda, afirmar que ele é o elo de ligação
entre este atual momento e a experiência cristã.
O mundo da transição, do movimento, da
diversidade, pede também estabilidade. Todo ser
humano precisa conviver, partilhar experiências,
compreensões, linguagens, avaliações
e decisões comuns. Todo ser humano necessita
de pertença. O mundo individualizado e em constante
mutação é também gerador
de solidão, em especial nas grandes cidades.
É por isso que constatamos, junto com o processo
individualizador, a sede por efetivas experiências
comunitárias, nas quais acolhimento, afeto e
ajuda mútua podem efetivamente ser experimentados.
As redes de comunidades não podem, deste modo,
permanecer apenas como proposta em nossos planejamentos
pastorais. Elas precisam urgentemente se tornar realidade
(DA 365, DGAE 49-50, 152).
Com o passar do tempo, nossas paróquias tradicionais,
sedentariamente estabelecidas, cresceram no número
de residentes, os quais, por sua vez, passaram a ter
fluxos de vida num raio bem mais amplo do que os limites
jurisdicionais. Em conseqüência, as paróquias
tendem a possibilitar efetiva experiência comunitária
a apenas alguns, em geral, os mais próximos ao
sacerdote. Para o restante, o que sobra é a participação
nas missas e o atendimento burocrático em vista
da prestação de serviços imediatos
(DGAE 156). Assim como em outro período da história
da Igreja, ocorreu a criação das paróquias,
como forma de presença capilarizada da Igreja
lá onde as pessoas estavam, penso ser este um
novo momento na história da Igreja, em que se
fazem necessárias a mesma coragem e boa dose
de urgência para recapilarizar continuamente.
Sem este recapilarizar comunitário, corremos
o risco de permanecer patinando na burocratização
pastoral.
É por isso que vemos crescer experiências
eclesiais que, construídas ao lado ou mesmo dentro
das paróquias tradicionais, manifestam-se como
mais atrativas. É por isso que, nesta Assembléia,
os senhores assumiram como destaque o tema das Comunidades
Eclesiais de Base, buscando compreendê-las nesta
nova etapa da história, de modo que, não
perdendo sua identidade, sejam capazes de manifestar
seu vigor num contexto sociocultural distinto daquele
em que surgiram.
De fato, esta mudança de época acena para
formas diferenciadas de concretizar a experiência
comunitária, cada uma com seu jeito de ser, com
seus carismas e seu modo de interagir com o todo sociocultural.
Num mundo plural, não há como afirmar
uma única concretização. Só
uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma Fé
será capaz de dialogar relevantemente com a mentalidade
que se nos apresenta hoje. Num contexto de homogeneidade
cultural e religiosa, concretizações únicas
funcionam, atraem. Num contexto de mobilidade, mutação
contínua e diversidade, a homogeneidade de formas
afasta. Não se trata do abandono do essencial,
do núcleo de nossa Fé, das metas comuns,
possibilitadoras da pastoral de conjunto. Trata-se de
reconhecer que a diversidade de concretizações
é, ao mesmo tempo, relevante para a mentalidade
que se vai gerando nesta mudança de época
e fiel à experiência cristã. Dois
aspectos são indispensáveis para todas
as concretizações. Primeiro, trata-se
do efetivo reconhecimento que nenhuma concretização
esgota em si a riqueza da dimensão comunitário-eclesial
e que, por isso, todas são chamadas ao caminhar
comum, superando as tensões da exacerbação
do próprio carisma. Segundo, o enfrentamento
testemunhal e interpelativo de uma mentalidade que,
exacerbando o individual, gera consumismo, isolamento
e exclusão.
É na força da comunidade que os discípulos
e discípulas de Jesus Cristo são capazes
de responder aos problemas emergentes, olhar com tranqüilidade
para as angústias e relativizar o impacto das
notícias, sejam quais forem. Só a força
da comunidade é capaz de passar pela aporia de
um momento histórico em que, por um lado, as
pessoas pedem atenção, afeto, contato,
mas, por outro, nós precisamos ser prudentes
para não sermos mal compreendidos e levados na
avalanche. Só na força da comunidade e,
hoje, das pequenas comunidades, é possível
superar a angústia que brota quando pensamos,
por exemplo, na possibilidade de um vazio vocacional
a médio prazo, quando os que hoje vivenciam fatos
desabonadores chegarem à juventude, momento da
opção. Estas e outras respostas só
são encontradas na força da comunidade.
Esta, a meu ver, é uma das razões pelas
quais sentimos crescer também a sensibilidade
para os eventos de massa. Ainda que em nível
diferente das comunidades, eles também fornecem
senso de pertença, identidade, certeza de que
há outros comungando dos mesmos ideais e projetos.
Os eventos de massa possuem forte carga terapêutica
diante do anonimato, da liquefação das
identidades, da fragilidade de referências . Importa
não concentrar esforços apenas em um destes
dois pólos: rede de comunidades ou eventos de
massa, esquecendo-se da mútua articulação
que deve existir entre ambos, à luz de um projeto
pastoral comum.
11.
O amor aos pobres e a defesa da vida
O encontro com Jesus Cristo exige o encontro com a Igreja,
na rede de comunidades. Estes dois aspectos, contudo,
apontam para outra urgência. Em nossos dias, Jesus
Cristo sozinho, sem vida de irmãos, gera consumismo
religioso. Jesus Cristo na pequena comunidade, sem a
abertura para outro social, corre o risco de gerar individualismo
comunitário, ao estilo das ilhas de proteção.
São projetos de vida, ainda que comunitários,
voltados, apenas para si mesmos. Estes dois riscos,
o do consumismo religioso e do individualismo grupal
se resolvem somente quando existe a sensibilidade para
o outro, em suas alegrias e, mais ainda, em suas dores.
A afirmação do recomeçar a partir
de Jesus Cristo numa Igreja comunidade de comunidades
aponta para uma espiritualidade profundamente comprometida
com a vida, em todas as suas instâncias. Aponta
para uma forte sensibilidade e um intenso compromisso
com os pobres, nos mais diversos e variados rostos que
eles venham a ter em nossos dias (DA 65, 257 e 402).
O Cristo kenoticamente assumido é o Cristo da
Cruz (1 Cr 1,23, Fp 2,5ss) e o Cristo da Cruz se concretiza
hoje nos diversos e crescentes crucificados. Entre estes
crucificados, não podemos deixar de lembrar que
até mesmo o próprio planeta, como um todo,
está sendo crucificado pelo egoísmo e
pela ganância (Campanha da Fraternidade 2011,
Fraternidade e a Vida no Planeta).
Mesmo que o preço seja o aumento no número
de pedras sobre si, a Igreja não poderá
recuar no seu compromisso histórico com a construção
de mundo mais fraterno, solidário, justo e reconciliado.
Não há como calar diante da vida ameaçada
e destruída. Este compromisso está no
mais íntimo do DNA da Igreja e deve se manifestar
no planejamento pastoral e se manifestar como outra
urgência. É claro que a Igreja sempre enfrentará
reações por causa deste compromisso. Uma
das maiores é, sem dúvida, o ataque, em
especial, via desmoralização. O caminho
não pode ser o do recuo, mas o da atenção
ao telhado: em lugar do vidro, telhas mais sólidas,
ainda que através de um preço interno
muito sofrido.
12.
Quem vai fazer tudo isso?
Uma ação evangelizadora de caráter
personalizador, capilarizante, solidário, atenta
às constantes mutações na realidade
e apta a interagir com rapidez diante de uma mentalidade
que se constrói a partir de outras concepções
de espaço e tempo, exige sensibilidade ainda
maior para a comunhão de carismas e ministérios.
Exige, de um lado, a afirmação do ministério
ordenado como o animador dos carismas e da comunhão
de carismas. Exige, de outro, a sensibilidade para,
na comunhão dos carismas, serviços e ministérios,
fortalecer o laicato nas diversas frentes de atuação.
O ministério ordenado tem, diante de si, o convite
do Ano Sacerdotal, com tudo o que este ano vem significando
em termos de fidelidade de Cristo e fidelidade a Cristo.
Independentemente das explicações e enfoques
que se possam dar a acontecimentos recentes, o atual
momento, tão mutante, tão acelerado, traz
para a categoria de urgência o que temos chamado
de pastoral presbiteral, o cuidado com aqueles que têm
a tarefa de cuidar (cf. DGAE 95).
No que diz respeito aos chamados ministérios
exercidos eclesialmente pelos batizados, não
discuto aqui a importância do laicato na transformação
do mundo. Chamo a atenção para os diversos
ministérios intracomunitários, em virtude
dos quais Aparecida bendiz a Deus (DA 99c).
Contamos com imenso número de pessoas generosas,
dedicadas, mártires cotidianas e silenciosas
da ação evangelizadora. Não fosse
esta vivência concreta do batismo, no serviço
dedicado à Evangelização, serviço
vivido das mais diversas formas, não teríamos
conseguido muito do que conseguimos. A novidade trazida
por este tempo de forte personalização
e capilarização é que precisamos
intensificar e mesmo estabelecer alguns ministérios
urgentes. São ministérios ligados ao acolhimento
e à missão. No campo do acolhimento personalizador,
urge catalisar os serviços ou ministérios
de escuta, intercessão, acolhida ou outro qualquer
nome que possam ter. Muitos grupos e comunidades já
fazem isso. É preciso acelerar a formação,
estabelecer critérios, partilhar experiências.
Numa Igreja que se preocupa em recomeçar a partir
de Jesus Cristo, como não pensar em intensificar
bem mais o ministério dos introdutores, como
indicado pelo RICA, ainda que sob diversas formas?
No campo da missão, por que não estimular
ainda mais o que Aparecida chama de animadores de comunidade
e assembléia, aptos a chegarem lá onde,
sem esta força de trabalho, não se consegue
chegar? (cf DGAE 173)
Em todo este processo, penso ser importante o ministério
da Palavra (DA 99a.c, 205, 211, 248), entendido em sentido
amplo, atuando no campo específico da pregação
e das celebrações (DA 253; DGAE 72), mas
também na formação bíblica,
como guias para a Leitura Orante e em tudo mais que
os senhores vão refletir no tema central desta
Assembléia.
13.
O que fica?
Ao terminar, peço desculpas aos senhores por
repetir aspectos que todos conhecemos. Fiz isso não
apenas por acreditarque não bastam discursos
para que uma realidade se transforme, mas também
por considerar que, em momentos de intensa mobilidade,
é preciso focar a atenção nos pontos
principais.
Em tudo isso, os senhores perceberam que não
apresentei novidade, pois, de fato, não se trata
de inventar a roda. Busquei apenas chamar a atenção
para aquilo que, em meio a tanta riqueza de nossa ação
evangelizadora, deve merecer destaque. Por isso, usei
exageradamente a palavra urgência.
O fato é que as mudanças de época
pedem um reconfigurar geral, reconfigurar nos fundamentos.
É claro que não se trata de colocar outro
fundamento que não seja Jesus Cristo. Trata-se
de pensar nas bases históricas, socioculturais
de nossa ação evangelizadora, chamada,
em nossos dias, a ser cada vez mais iniciática
(apresentar e reapresentar continuamente Jesus Cristo,
e o Cristo da kénosis até a cruz), personalizadora,
capilarizante, solidária e ministerial. Se estas
urgências forem na prática enfrentadas,
poderemos efetivamente contribuir para o novo ethos
que precisa surgir.
*Não é documento oficial da CNBB
Pe. Joel Portella Amado |
Conjuntura
Vida Religiosa
Encruzilhada da Vida Religiosa
|
O
mundo da pós-modernidade, se quisermos adotar
esta linha de pensamento, vem acompanhado de um intenso
"rumor de anjos" (Peter Berger). Rumor que,
apesar do barulho das máquinas, da revolução
informática e da proliferação
de sons e imagens, se ergue cada vez mais forte. Em
não poucos casos, chega a ser estridente, espetacular,
quase cinematográfico. Em palavras mais simples,
os deuses estão de volta. Retornam com a energia
de águas represadas, com a mesma força
com que foram banidos no decorrer dos "tempos
modernos".
Deuses no plural, o que procura dar conta da diversidade
de expressões religiosas que caracteriza al
sociedades atual. Com efeito, o pluralismo cultural
e religioso constitui um dos aspectos predominantes
da "condição pós-moderna"
(Lyotard). Os deuses estão nas ruas, nas páginas
e espaços da mídia, em muitos títulos
dos livros de publicação recente, na
arquitetura dos grandes centros comerciais. Divindades
para todos os gostos e sabores, todas as inquietações
e ideologias. Deuses conhecidos, demasiadamente conhecidos,
o que os torna também manipuláveis.
Mais do que o secularismo, o que preocupa a América
Latina e o Caribe, bem como cada um de seus países,
não é tanto a falta de deuses, mas o
excesso. Neste imenso areópago moderno ou pós-moderno,
o grande desafio é identificar os traços
do "Deus desconhecido" de Paulo em Atenas,
mistério que, a um só tempo, se revela
e se oculta.
Talvez o retorno da dimensão transcendente,
em pleno contexto materialista, individualizado e
tecnológico, se deva aos sintomas de anomia,
à falta de referências, ao relativismo
e à fragmentação tão presentes
no universo urbano. As certezas foram substituídas
pelas dúvidas, as verdades por novas interrogações
e as perguntas se tornaram maiores que nossa capacidade
de encontrar resposta. Parafraseando Simone de Beauvoir,
as estrelas se apagaram no céu, os marcos desapareceram
da estrada e o chão fugiu debaixo dos pés.
Medos e angústias, temores e tremores, insegurança
e instabilidade configuram uma falta de sentido que
toma conta da "multidão solitária"
(David Riesman). Uma espécie de vertigem em
que, ao caminhar, parecemos nos equilibrar numa corda
bamba sobre um abismo sem fundo, um novo "mal
estar da civilização", para usar
a expressão cunhada por Freud.
Crise e encruzilhada
Crise costuma ser a palavra adequada para
definir esse cenário preocupante. Mas toda
crise tem dupla face: queda e superação.
Em seu lado negativo, tendemos a ser conduzidos ao
berço, ao saudosismo de um passado idealizado
e até, morbidamente, ao colo da mãe;
em seu lado positivo, tenta-se superar a inércia
e avançar para a fronteira. Neste caso, ao
invés de prostrar e deprimir, a crise desinstala
e interpela, engendrando a coragem de fazer novas
perguntas. Melhor dizendo, num primeiro momento, a
crise pode, sim, nos levar ao berço aconchegante.
Mas, em seguida, depura e tempera o ânimo dos
mais destemidos para os novos desafios que a história
levanta. É assim que, tomando a metáfora
de Guimarães Rosa, no pranto e na coragem,
cada crise tende a abrir novas veredas no grande sertão
da vida humana, como também na Vida Religiosa.
Nascer e crescer só é possível
através da dor.
Este segundo momento da crise pode ser entendido com
a noção de encruzilhada. Esta noção,
como sabemos, pressupõe dois aspectos complementares
e característicos da complexidade dos tempos
atuais: bifurcação de caminhos, por
uma parte, necessidade de opção, por
outra. No cenário da Vida Religiosa hodierna,
esses dois aspectos estão presentes e entrelaçados
como nunca. A bifurcação de caminhos
se manifesta nas novas formas de vida consagrada.
Em termos mais ortodoxos de fechamento e isolamento,
há os que procuram se proteger frente aos "perigos
da vida moderna"; em termos da busca de um testemunho
simultaneamente mais autêntico e mais visível,
especialmente nos lugares mais sórdidos do
meio urbano, há os que remontam a experiências
do passado, tentando adotá-las sem uma devida
transposição cultural.
Já a opção entre os vários
caminhos da encruzilhada torna-se cada vez mais difícil
e laboriosa. Diante de uma sociedade crescentemente
apelativa, permissiva e agressiva, o discernimento
criterioso é quase um milagre. A força
persuasiva do marketing e da publicidade estimula
os desejos, insinua as escolhas, impõe os gostos.
As manifestações do sagrado em geral
e da Vida Consagrada em particular não estão
imunes ao império e à sedução
da propaganda. O fascínio dos modismos entra
pelas brechas de nossas comunidades religiosas, como
o pó invisível da poluição
penetra pelas portas e janelas mais cerradas. As mesmas
contradições que dilaceram o tecido
social também dilaceram as diferentes organizações
da Igreja. Esta nunca foi e nunca será uma
"arca de Noé" ao abrigo da tormenta
ou das vitrines profusamente iluminadas da "sociedade
do espetáculo" (Guy Debord).
Se admitimos que a Vida Religiosa, atualmente, "geme
e sofre as dores de parto" (Rm 8, 22) e que a
crise já nos está levando à encruzilhada,
então é hora de colocar-nos corajosamente
na confluência dos caminhos, e aí fazer
as perguntas certas, digerir e enfrentar suas dúvidas.
Só assim será possível amadurecer
a tarefa do discernimento e das novas opções.
Basta de lamentar e de acariciar mágoas e culpas
como se fossem animais de estimação!
É hora de agir, de avançar em direção
à fronteira! Por outro lado, essa tarefa lenta
e difícil das escolhas não ocorre fora
do contexto mais amplo da mudança de paradigma,
nem fora de uma situação socioeconômica
e político-cultural cada vez mais complexa.
Crise e encruzilhada tendem a nos desnudar diante
do espelho. Tende também a um olhar retrospectivo.
Não um olhar de retrocesso ou o andar de caranguejo,
mas uma consulta à trajetória histórica,
em vista de avanços que, em meio à bifurcação,
nos permitam novas opções, ao mesmo
tempo criteriosas e ousadas. Numa palavra, um olhar
ao retrovisor que nos faça extrair as pérolas
ocultas na memória de nossas ordens, congregações
e institutos, nos revista de humildade para aprender
com a sabedoria dos antepassados, e em seguida nos
dê a segurança suficiente para acelerar
o ritmo de nossos projetos e de nossos passos.
Beber das próprias fontes
Em termos de Vida Religiosa, olhar o espelho
é voltar às raízes, beber das
fontes originárias. Na origem, a água
é mais fresca e cristalina, mais apta a matar
a sede. Reforça o alento para seguir o caminho,
por mais longo e íngreme que seja. No conjunto
da vida consagrada, três fontes são indispensáveis,
primordiais e inegociáveis: a Palavra de Deus,
concentrada no evento Jesus Cristo, como fonte geral;
o carisma de cada ordem, Congregação
ou Instituto, como fonte específica; o clamor
dos oprimidos como fidelidade à opção
evangélica pelos pobres.
No caso da primeira fonte, Jesus que "passou
pelo mundo fazendo o bem" (At 10,38) revela não
apenas a face oculta do Pai. Revela também
as potencialidades mais profundas e às vezes
adormecidas no interior de cada ser humano. Em verdade,
este foi "programado" em sua natureza para
uma constante superação de si mesmo,
até atingir a dimensão do encontro com
o divino. "De Deus viemos e não descansaremos
enquanto não voltarmos para Ele", recorda
Santo Agostinho. "Pois nele vivemos, nos movemos
e existimos" (At 17, 28).
O seguimento de Jesus Cristo, na Vida Religiosa, é
a expressão máxima dessa contínua
superação. Semelhante caminho requer,
entre outras coisas, a kenosis de que nos fala o apóstolo
Paulo (Fl 2,6-11). O que significa a humildade de
admitir e tentar vencer as próprias fraquezas
e limitações, caminho que somente é
possível com uma abertura transparente à
graça de Deus e à luz do Espírito.
Carregamos o tesouro em vasos de barro e sabemos,
ainda com Paulo, que na fraqueza é então
que sou forte. Em poucas palavras, o seguimento exige
cultivo de uma intimidade prolongada e persistente
com o Deus de Jesus Cristo, o inefável "Abba"
da montanha.
A segunda fonte nos leva a retomar a herança
dos respectivos fundadores ou fundadoras. A leitura
da palavra de Deus concretiza-se num rosto e/ou numa
situação específica da condição
de vida dos pobres. Aqui, imitar não é
a melhor forma de seguir. Ao contrário, pode
levar a uma inconsciente traição das
necessidades prementes da realidade. Seguir é
recriar o espírito do carisma frente aos desafios
de hoje. A expressão já consolidada
da fidelidade criativa exige, por um lado, o aprofundar-se
na espiritualidade originária e, por outro,
a ousadia de atualizar constantemente o carisma em
meio às "mudanças rápidas
e profundas" (Gaudium st Spes, nº 4). Nem
precisa acrescentar que a vivência do carisma
é indissociável da vida comunitária
e fraterna, do querer-se bem em meio a uma sociedade
que prega o culto do "eu", da personalidade,
da celebridade, do individualismo exacerbado. Trata-se
de reproduzir o ambiente da casa/família das
primeiras comunidades cristãs.
Por fim, e não por último, o clamor
dos pobres será sempre nosso juiz histórico.
É a partir do que fazemos ou deixamos de fazer
diante dos indefesos, que a Vida Religiosa ganha sua
razão de ser. Nada disso constitui novidade.
Basta reler o capítulo 25 do Evangelho de Mateus,
o episódio do Bom Samaritano, os dois retratos
do cristianismo primitivo nos Atos dos Apóstolos
(2,42-47; 4,32-35), entre tantos outros textos. Nossos
votos de pobreza, castidade e obediência, longe
de representar uma castração, nos tornam
mais ricos da graça de Deus, mais fecundos
nas relações humanas e mais livres no
projeto do Reino.
O contato com a vida ameaçada dos excluídos,
a corajosa descida aos infernos do sofrimento humano,
a inserção as favelas e periferias,
nas ruas e porões da sociedade, nas prisões
e assentamentos, nas comunidades indígenas
ou afro-brasileiras... Tudo isso concretiza a opção
preferencial pelos pobres, que não significa
uma predileção pelos "bons",
e sim a compaixão evangélica pelas vítimas
da história. Nesses "infernos humanos"
é que se revela o rosto misericordioso do Pai.
A intimidade com Deus na montanha e a vida fraterna
na casa se complementam com a permanente abertura
aos caminhos da história.
O que nos manterá de pé como religiosos
e religiosas não são os títulos,
as contas bancárias, o prestígio, o
profissionalismo, as ideologias, a capacidade de produzir,
fazer e aparecer, ou sei lá mais o quê!
Neste momento de crise-encruzilhada, o segredo é
voltar os olhos para a montanha, a casa/família
e o caminho. São as três dimensões
que nutrem nossa fé e nossa esperança,
para fortalecer nossa caridade solidária. Os
únicos poços que podem matar nossa sede.
Ou buscamos esses poços de sabedoria ou perecemos
como mulheres e homens mal consagrados. O vendaval
e os modismos da pós-modernidade rugem furiosamente
em nossas janelas, uma avalanche de objetos nos fascina
pela telinha da TV, o ativismo nos seduz, mas "uma
só coisa é necessária",
diz o Mestre (Lc 10, 38-42).]
Esperar contra toda esperança
Encruzilhada não é lugar de
buscar respostas fáceis e imediatas para perguntas
complexas. É lugar de parar e silenciar, escutar
e compreender, "guardar e meditar sobre todas
essas coisas em seu coração", como
fazia Maria (Lc 2, 19. 51). Só o silêncio
e a escuta serão capazes de engendrar palavras
novas e criativas para os desafios da história.
É mais fácil continuar caminhando velozmente
do que deter os passos para, diante da bifurcação
de caminhos, estudar a melhor forma de prosseguir.
"Vinde vós, sozinhos, a um lugar deserto
e descansai um pouco..." (Mc 6, 31). Em momentos
como este, a tentação é de deixar-se
arrastar pela voracidade dos critérios capitalistas
de produtivismo e consumismo. Ou seja, tenta-se encobrir
a apatia visível por uma atividade alucinada,
que oculta o aparente vazio de nossas existências
e impede uma reflexão mais profunda. Com isso,
não raro, os critérios do sistema capitalista
passam a orientar também a prática pastoral
e libertadora.
Quando somos impelidos, como máquinas, por
esse ritmo avassalador, que é também
devastador da natureza, dos outros e de nós
mesmos, é hora de ouvir a suave melodia do
salmista: "fiz calar e sossegar a minha alma;
ela está em grande paz dentro de mim, como
a criança bem tranqüila, amamentada, no
regaço acolhedor de sua mãe" (Sl
130). O que não significa passividade e indiferença
diante do sofrimento alheio, mas uma atividade que
se sabe limitada e que, por isso, permanece constantemente
aberta à ação do Espírito
na história. Faço o que está
ao meu alcance, mas a obra é de Deus. Ainda
que eu me equivoque, Ele saberá como orientar
meus atos. "É um retiro da praticidade
para salvar a praticidade", diz com razão
Bernard Lonergan (Insight).
Significa, no fundo, colocar-se inteiramente à
disposição do Espírito, focalizando
todas as energias no protagonismo histórico
dos pobres. Cientes, porém, de que toda a ordem
social e todo o projeto humano são limitados
e provisórios. O Reino de Deus não cabe
em nenhum partido, em nenhuma organização
social, em nenhuma formação econômica
ou política, nem sequer nas fronteiras estreitas
da Igreja, "santa e pecadora", como lembra
a liturgia.
Em meio às atividades do dia-a-dia, deixar
espaço para a irrupção de Deus
na história, para as surpresas do espírito
que "sopra onde quer" (Jo, 3, 8). Quantas
vezes tentamos manipular a novidade de sua presença
na vida de cada ser humano e na vida da humanidade!
A crise-encruzilhada traz uma nova sabedoria: acreditar
não tanto na colheita visível, imediata
e espetacular. No mundo atual somos facilmente levados
a isso pelo apelo da moda e de suas exigências,
pelo "império do efêmero" (Gilles
Lipovetsky). Difícil é "esperar
contra toda a esperança" (Rm 4,18): crer
na semente que matura no silêncio escuro da
terra e que, antes de buscar o sol, mergulha as raízes
no solo úmido pelas lágrimas da dor
e do sofrimento.
São Paulo, 17 de junho de 2010.
Pe. Alfredo J. Gonçalves
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